terça-feira, 19 de março de 2013

anjos da ribalta

 
anjos da ribalta 

 


 I.

a desmesura
rompe a porta e entra sala adentro
- para sempre –
à sombra de uma estátua grega
...

as más línguas se debatem
agourentas: as palavras inauditas
entre quatro paredes [ cor de chumbo ]: é o fim do mundo –

gelosias levam aos elogios
mútuos impossíveis – de não se ouvir no trigésimo andar do prédio
[ lá onde as estrelas são revistas diariamente num céu pardacento ]
aos cotovelos se aglomeram
vizinhos pelos corredores
de um metro de largura

II.

a arena está criada:

de um lado os apoiadores do homem
do outro os defensores da mulher

[ os sapos ficam de fora
em charcos coaxando
aos pulmões toda realidade ]

em cada fio de cabelo
solto ao ar urros de glória
de ambos os lados

instala-se
aquiagora uma luta homérica
sobre o mármore travertino
na sala no quarto na cozinha do casal:
cabelos jorram aos borbotões
entre as fasquias das janelas – à luz do luar –
esvaindo-se grisalhos

III.

vê-se
os flancos abertos
e tanto opositores
como defensores – desamparados –

não há vísceras tombando
– o sangue não jorra das barrigas –

tanto homem como mulher
usam unhas [ no caso dela ] e punhos [ no caso dele ]
apenas

crivam-se de palavras emaranhadas
de cócegas um ao outro
provocando risos em si

incrédulos – opositores e defensores –
reúnem-se pelas fímbrias
e apenas murmuram
coisas tartamudas

IV.

eis que o bando do deixa disso
invocado - sabe-se lá por quem -
comparece dissolvendo
o caos instalado

corredores são limpos
homem e mulher separados
e reclusos cada um
em sua redoma

nada grave - diz um opositor enquanto ao seu lado
um defensor acrescenta: falta de labor da díade
[ filhos do tédio – mimos da sociedade – ] sem rédeas

silêncio neste bordel : caso encerrado !
limpem a área e retornem aos seus leitos – brada o porteiro

lá fora ouve-se
o coaxar dos sapos
– insensíveis os sapos –
pelas catedrais da cidade

homem e mulher [ em suas miudezas ]
constelam-se de fósforo
 
 

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