quinta-feira, 27 de outubro de 2011

olho-de-tigre



olho-de-tigre



1.

vejo
vermelhos
os lábios destes pedaços
entre as virilhas ferruginosas
onde farfalha o desejo parco
e escondido da ave que se move
leve no ar ultrapassando
os concretos dos escarcéus
mais profundos
lá onde o luar
de uma madrugada calva
implora pela cabeleira
do sol imóvel
que ao vento ronda
entre a perdida
onda até que a manhã
dobrando a esquina
encontra a tarde
na solitária alma
sob uma miúda garoa
de tempestades
de estrelas-rendas-intrigas
dos sentidos que os dardos
das retramas alcançam
nossos cortiços

2.

o granito
ouro-âmbar
sobre a bruteza
da cidade selvagem
de pedra abrupta
ensimesmando
[ florescendo-se neobarroco e art déco ]
as fachadas inacabadas
dos cárceres fétidos
sob a chuva ácida
desse horizonte
vigiando o lago-rio
ao crepúsculo a contracéu a
admirável rosáceo-negro

- o labirinto dos (b)ecos dessepulta
sob a piazza alfandegária          (1)
dos mascates à beira-cais
restos da memória
esfarrapada -
onde o caos que suss
urrava circulante
entre estruturas ( tubos dutos vias )
à plena luz dos dias diarréicos
engendrando o arquiteto
da palavra-tinta-carvão

3.

imprimindo
no relevo da cidade
as antenas invasoras
os cantares capitais
que o poeta lambia
cariciosamente ( com seus olhos-câmeras )
os detritos mais suaves
escarlates urbanos
da alma reclusa saudada
em dedos diários
- do majestic ao royal -        (2)
e outrora orientava-se
pela banca 40 ( abitò questa casa )
entre ladrilhos
onde - laborioso -
o olhar ao redor do bar      
fazia das refeições
dos últimos (pl)anos
um excesso de pureza
emudecendo o mundo
com seus versos
risonhos:

eles passarão eu passarinho        (3)

4.

o tempo
esgarçando-se entre beirais
de pombos e calçadas sujas
de bocejos da memória
tenra e turva em torno dela   
– talavera de la reina –      (4)
conduz toda a luz azul-cobalto
à catedral de vitrais ecumênicos
para – entre a matriz e o teatro –
à sombra do ipê-roxo
junto ao murmúrio das fontes
e de pássaros metálicos
ouvir ou ver versos
de ouro-bronze
dos silêncios de Mario
inspirando o lago-rio
aos pés dele
como um odisseu
com seus corvos-ícones
tão cândido:

[ o olho-de-tigre ]

ao longe
enxergava todas ruas
e becos da cidade
entre eles – seus fantasmas –
impassível à espreita
nas esquinas
diurnoturnas da escória
para [ depurados aos olhos ]
voar – em gestos – ao paraíso

- deitado de sapatos          (5)




notas:

1.   Praça da Alfândega no Centro de Porto Alegre;

2.   Hotéis onde  Mario Quintana morou por mais de 30 anos;

3.   De " Prosa e Verso - 1978 " por Mario Quintana - ( 1906 / 1994 );

4.   Praça Montevideo - Paço Municipal ( antiga Prefeitura), onde
      fica a Fonte Talavera de La Reina, doada pela colônia espanho-
      la de Porto Alegre à Cidade, em 1935, em homenagem ao cente-
      nário da Revoluçao Farroupilha;

5.  Citação de Mario Quintana ao brincar com a morte, onde dizia:
      " a morte é a libertação total: a morte é quando a gente pode, a-
      final, deitar de sapatos;

Um comentário:

  1. olhos de âmbar teu ar de tigre sobre as palavras como gérberas estrelas num céu de cócoras e árvores sobre nós como o tempo se esgueirando nos nossos umbrais e sobre teus ombros a pétala de uma petúnia e asas de uma ave dançarina flutua flor farfalha como um luar claro de penumbras suaves e sombras de folhas dálias

    ***

    tempestades ensolaradas invadindo cortiços nebulosos agitados de tramas rangendo caules e redes penduradas nos dentes abertos ao vento que assobia e sobe pelos telhados acariciando casas roucas e destilando o fundo de nossas alfândegas palavras

    ***

    urbanos medos e centelhas ocidentais ossos levantando prédios e vozes pétreas palavras asfaltadas e espremidas no torno do espaço e fundidas no tempo dos sapatos grisalhidos

    ***

    olhar de âmbarina sobre a escuridão da face sulcando ampulheta de metal sepultando fantasmas tirados a dedos do fundo dos becos e pelos olhos de âmbareal deslumificando o silêncio de todos os passos e de todas os gestos contidos na memória

    teu olhar de tigre me palavrâmbar

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