sábado, 15 de outubro de 2011

miragens


miragens




eis-me vivo
embebecido em álcool etílico
 faminto
uma camisa suja  
sobrancelha aparada olhos vermelhos
lançando olhares trêmulos
entre o céu profundo azul
e a lua que desponta
antes do anoitecer de estrelas
onde agora tudo é nada
e nadam num oceano
jardins de corais
a cor dos ais 
que ácidos me tomam
conta de mim
e do instante em que re-
fecho os olhos e nada mais enxergo
  me ergo
como um enxame de abelhas
 sobrevoando
 esta rua enlameada
esta alma calcinada
a vida perturbada
a lama petrificada
 a pedra calcificada
desta tarde classificada
de mais uma tarde infernal
por causa do calor alagoano
angolano que aquiagora se faz
ferver os miol(h)os de mim 
de dentro de mim
de fora de mim
de todos que estão a minha revolta
como se o dia ardesse odessa
 eu saio dessa
 se deus quiser
e el diablo permitir
 eu ir permutar o ar
busto que ao vento farpado
 dobra-se em cãibras
e a cidra âmbar que me embriaga
 devagar abrasando as asas
de cristais do pássaro branco
sobre o barco 
um relâmpago
de estrelas lufando
 na noite de píncaros raros
 celebrando
 em rochas aturdidas
  todas onças crespas
desse roto oceano de trevas 
 e às favas
 com as conchas bruscas
 as carpas brutas
 as cobras parcas
 os frutos cardos
 que deslizam na corrente
válvula ululante
como lâmina de sabre se abre
o ventre na areia grossa
que roça as falésias
e os ângulos engolfados
dos teus golfinhos mareados
transvoando entreolhos amêndoas 
esta minha primavera
de abutres e cabrestos 
dos dedos rudes e mãos
de pedras e flores plásticas
nas margens removidas
desse corpo derradeiro
  sem se render às rendas
sem ofender as fendas
 sem descarnar as redes
sem romper as sedes
 que trago na têmpora da memória
nesse âmbito de seda
  onde a aurora 
se traduz em presságios da alma 
 e eis-me aqui
lavrador de mim mesmo
sobre a ossatura curva e dura dis-
traído com as unhas
 dessas desassossegadas rimas
como os nervosos fios da meada
que se estendem teia-à-teia
 em formas de tentáculos
nas veias mais profundas e rasas
 expulsando-me os (a)braços longos
entre o turvo olhar e o denso olhar
 do pôr-de-sol
que finda a fábula
que inflama a noite jasmim
que sonhei a noite inteira
 nesse transe pelos picos
onde as nuvens
alcançam o céu leitoso
do dia agudo
ousado oco
ou miragem morta atada 
 aos alicerces
desta alma ressequida
das idas sem fim sem começo
sem som imagem
e teço uma jornada de tudo jorr
ando palavras da lama
que brota em explosão contí
nua como lava nua
varrendo-me o roer dos ossos
acordados de qualquer ausência
ácida de sabor rosáceo
do fósforo exposto 
 à sombra e o langor
do polegar garra polida
sentida pela nuca da mais
pura fibra de dentes 
 úmidos do músgulo intenso
dos flancos imensos
silênciosonhos retidos
na névoa da retina 
 que atiça-me vê-la 
abrupta rompendo
com os tornozelos 
do poento crepúsculo
comum dardo insone costurado
às vigas dos meus cotovelos
curvos onde os corvos
 crivam de cicadas a carcaça
encurvada da corvina 
nas cravinas da caverna
que deslinda a luz que finda
onde se quebram
ondas ferventres
entre as correntes de marfim
que dormitam nas frinchas
mais distantes de meus pés
nus como são azuis
os lábios de frio
neste corrimão dessa escada
 em cada pedaço de pétala
que se disfarça 
e esgarça flutuando
o pescoço arqueado
em arco como um corcel
 como a cor do céu
como a cor do lado
do mais alado imortal
em fuga flu-
indo rápido entre as pedras
 do riacho
que estou sem (p)rumo
sem ousadia na bruma
mais profunda da solidão
 dessa devassidão
 longa eternidade apodrecendo
ao avesso osso da ave
nuvem alquebrada
pelo vento roto translunar que sou
 num esplendor rígido
que suporto em estrias
 e o que importa são
as ruínas da veia aorta
perambulando em meu peito
 como a via láctea no universo táctil
de nós
vibrátil dos nós das cordas
  embaraçadas em intrigas
na calmaria das estrelas 
onde o périplo das miragens
se (con)fundem com as linguagens
das vias conspiratórias
das oratórias dos otários oradores
-  ora as dores –
por hora vislumbram
os oráculos dos deuses
dos umbráculos dos cogumelos
 das corcovas dos camelos
do canto dos melros
 do mel dos lábios entreabertos
dos dromedá-
rios dos medos
 mais (or)di(n)ários 
das paisagens bucólicas
alucinógenas
dos campos mais tenros
das luzes diabólicas
  que me dão vertigens
e cólicas de tudo ocorrendo
ao mesmo tempo
modorrento tempo oco
onde rendo-me 
ao após e sós 
os nós serão desatados de mim mesmo
através do pó dos cenários
dos límpidos rios 
onde miro o fio de prumo
dos dias
 e faço planos
dos anos passados
e futuros vivicidos
 nesse meridiano
que atravessa
minha alma repleta
  e transita até que outros
olhos indaguem
a draga do meu corpo
encharcado de suor e saliva
 e os tenebrosos tendões róseos
entre o osso e a mandíbula
até a têmpora tres-
passada decretada crestada
por uma besta-fera
que mata essa sede
estratosférica
 que há dentro
como o eco corrosivo
 como o coentro saporífero
como o centro do meu escarcéu
que naufraga frágil ao léu
onde decepo a cepa da fruta madura
em teu cortiço atiçando-me
 furtivo o teu olhar
uivante dos jardins
suspensos dos sentidos 
entre delírios e segredos
de úlceras oclusas nas vértebras...

2 comentários:

  1. embriagador teu (con)texto. Ainda bem que sonhaste com corcéis carcomendo o vento e o meu intento é relê-lo até que as tripas digam: "chega!" e o regato escorre gelado se crispando em ondas bucólicas feito uma rosa desabrochada que, brochada, se refestela tentando se reerguer, derrapa no lençol e suga etanol, num eterno rol. e solta a rolha com saca-rolha e se sacoleja toda, despetalando-se, ficando nua, pétala por pétala: só pólen.

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  2. Ó palavra! Tu me descortiças úlcera venerada de palavra abrasadora carniça meus medos e seixo correndo solto no riacho me elabora alegra alvorada até os corvos dançam garças como lobos suavisados na alvura das pelancas dos carneiros loucos ah mas eu sou distante azul no teu olhorizonte como um sonho roxo de cinzas sobreavoada de urubus na cor do crepúsculo.

    Meu ventre dentro uma serpente silva salamandra silente como um fogo crispa a língua dormente e acende a mais cândida e diabólica lírica e como um sol nervoso dentro da terra a palavra desassossegada é miragem jorro brotação libélula na língua de uma gata fábula enviesada pétala disfarça despiste palpite cárie cremação raspagem morte puta sacanagem a palavra é a ousadia da mais profunda solidão!

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