terça-feira, 27 de setembro de 2011

o ar de recife


o ar de recife


pernam
busco-me
em teu capibaribe
arremessando beberibe
pelos teus arrecifes

este sítio grande
dos pintos dos prazeres
da mangueira carioca
dos teus quereres
onde brasília teimosa
tem macaxeira
caldinho cor-de-rosa
berimbau dos afogados
caldeirada à portuguesa
galo da madrugada
à holandesa de nassau

abro a janela dos aflitos
dos teus cortiços da ilha do retiro
poço da panela da gata lady
boa viagem pina tua bunda
olha o sururu escondidinho
no arruda arrumadinho
água feijão bredo de coco
carne de sol pé-de-moleque
é pouco o teu pôr-de-sol
em teu rio de janeiro
a dezembro
eu me lembro

rua da hora me enfeite
com teu tom pastel
ilha do (de)leite
das cabras sarapatel
imbiribeira tejipió
minha linda brejeira 
de um sábado
do zé pereira

jordão da ilha
de deus dará
um espinheiro
por caxangá
abolinação um cheiro
em teu coração
maracatu olinda 
eletricidade
o rock manguebit
belle époque
frevo carnaval
onde tu_do
se assiste
outra vez
no coqueiral
de cabral

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

outubro : os corvos do meu céu



outubro : os corvos do meu céu



luminárias devem cintilar
a solidão da noite
de luz insólita

antes de cair dos céus
olharia as sombras
das tormentas

- transformadas em sonhos -

mas deixo
que o falso dia
penetre pelas fenestras
volitando pigmentos
pelos lábios petrificados

exponho
um seio da face ao sol
elevo-me à razão do pulso
que acelera (a)o ritmo dos passos
até o último instante

tão tênue
que eu passo
a desafiar o tempo
do vento mais antigo
e intrigante

ouço dizer que os anos
podem alterar rumos
e muitos anos - o horizonte -

o olhar que arremessei
aos céus nesta noite
não (a)tingiu o coração

sábado, 17 de setembro de 2011

ousadia - ( atreverse )

ousadia   *** (1)



a memória salva por uma vinha

a porta-ponte a porta-espelho

( esconderijo ) ou 

[cárcere]

descerrar a janela  ( invisível à luz )

revelar
o estojo entre as trevas

( estojo dentro do estojo
  e por último o labirinto - 
  e no labirinto: eu )

a fechadura
perdeu seu segredo
não pode traçar a urdidura

..............................................

*** (1)  tradução do poema


atreverse  ( de Silvia Zappia - " Rayuela " )    Blog   " en-zigurat "



memoria guardada por una enredadera

puertapuente, puertaespejo

(secreto refugio)

o

[prisión]

abrir la ventana

)invisible en la luz(

buscar la caja entre las sombras

(cajas dentro de caja
y en la última
el laberinto
y en el laberinto
yo)

el candado perdió su llave
no puede inventarse el olvido*

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

o (re)pouso é assombroso - (l'equilibrio è un miracolo)

o (re)pouso é assombroso   *** (1)

olho e penso:

neste mundo ao avesso
o desvario me desafia
suspenso sobre um fio

suavemente
de pernas para o ar
o (re)pouso é assombroso

por um instante
adio a vida e deixo-a
de lado agreste

me rendo
ao humano medo
de ser livre

- salto no vazio dos sentidos -

descerro os olhos
no profundo azul
deste céu amplo

quando vem a tormenta
o vento não me pega desprovido
o (re)pouso é assombroso

por um instante
adio a vida e deixo-a
de lado agreste

e me rendo ao perigo
frágil à espreita

- salto no vazio dos sentidos -

descerro os olhos
no profundo azul
deste céu amplo

por um instante
vivo a vida de sonhos
puríssimo

e me rendo
certo de ser frágil

- salto até o vazio dos sentidos -

que sinto dentro em mim
no profundo azul
deste céu amplo

....................................................

*** (1) tradução do poema

" l'equilibrio è un miracolo " por Debora Suomi

Guardo il mondo e penso a testa in giu’

Sopra a un filo che e’ sospeso
Di vertigine in vertigine
Dove e’ piu’ leggero esistere
Dolce e’ vivere nell’aria
L’equilibrio e’ un miracolo

Per un momento io lascio la vita sospesa negli angoli
E mi abbandono all’umana paura di essere liberi
Volteggio piano nel vuoto d’amore
Apro i miei occhi nel blu
Di questo cielo cosi grande

Quando arriva la tempesta qui
Non mi coglie impreparata il vento
L’equilibrio e’ un miracolo

Per un momento io lascio la vita sospesa negli angoli
E mi abbandono alla fragile attesa di nuovi pericoli
Volteggio piano nel vuoto d’amore apro i miei occhi nel blu
Di questo cielo cosi grande

Per un momento io vivo la vita sognata degli angeli
E mi abbandono all’umana certezza di essere fragili
Volteggio piano nel vuoto d’amore che sento dentro di me
In questo cielo cosi grande

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

odysseia

odysseia



olisipo ( allis ubbo ):
púrpura tíria phoenicia

kina’ahu - “ canaã “
kinahu - “ carmesim “

olissipo: hellas / graecia
ulysses como odisseu
a fez: odysseia

“ ibi oppidum olisipone ulixi conditum:
ibi tagus flumen “   (1)

olissipona ou como ptolomeu
disse: oliosipon

roma : lusitania
pax romana
- felicitas julia -

visigodos / westgoten
chamaram-na:
ulishbona

mouros / imazighen
d(en)ominaram-na:
al-luxbuna
ou
al-ushbuna
apelidada de “ kudyia ”

al-idrisi  (2)   cantava:
“ o mar lança palhetas de ouro sobre a praia “

de qualquer forma
teu nome é:

lisboa

“ uma noiva em sua alcova nupcial “
- al-maghribi   (3)

teu corpo
se esparrama
em nostalgia
nas douradas areias
noite e dia
ali onde o tejo
porto seguro de naus
e caravelas
de ninfas ibéricas
beija o mar

esta cidade bela
do fado que deságua
dentro em mim
lodosas e úmidas
ilhotas salinas
a bordejar
num mar de palha
das sete colinas

cidade íngreme
do bairro alto
da baixa do paço
do chiado do rossio
da alfama de belém
dos aventureiros
que partiram
 para o além
muito além do além-mar

lisboa: flor-de-lis
sempre te quis
à toa ao meu redor
onde um remador
se fez odisseu
numa épica
odisséia

o ocaso de mim
entre ramos de ciprestes
o alvorecer de ti
entre gotas de orvalho
assim te levo
ao mar tenebroso
onde o vento
nos (a)guarda
onde há o sol
que (t)arda



Notas:

1. Segundo a lenda de Estrabão ( 63 D.C / 24 D.C ), historiador, geógrafo e filósofo grego, Ulysses teria fundado uma cidade na penísula ibérica, que seria Lisboa. Do latim: “ Ibi oppidum olisipone ulixi conditum: ibi tagus flumen “, cuja tradução seria: “ Ulysses fundou Lisboa às margens do rio Tejo...”

2. Abu Abd Allah Muhammad Al-Idrisi, ( 1110 – 1165 ) cartógrafo medieval árabe que escreveu sobre a fundação de lisboa...

3. Ali Ibn Musa Ibn Said Al-Maghribi, ( 1214 – 1286 ) poeta, geógrafo e gramático arábe,  também relatou em seus escritos a história de lisboa...