quarta-feira, 25 de maio de 2011

a lua desapareceu do céu

a lua desapareceu do céu


a tarde
em fiapos se esvai
e escrever é uma forma
de espantar este tédio

os nós dos sonhos
são os acasos
da noite

o ocaso
entre o cosmos
e o corpo celeste:

- é crepúsculo ou ócio -

é tudo o que sinto
neste instante
nenhum músculo
me (co)move

muito mais a míngua
que a alma
dita sorve

onde (re)nasce o alvor
desta face
que se faz trégua

para ser carcomida
que não se entrega
ou quase nada

como um peixe fora d’água
é farinha de osso mauro

e sob grossas lentes
esta engrenagem
gangrena e turva

como a tarde (ex)tensa
a arder em cadência
marcha lenta

veja: nas ruas este pó
se despedaçar
em pedras

onde as pedras
se servem de um mar
de lágrimas

o mesmo mar
que se enerva
lá onde a onda vaga
e se entreva

e são vagas as ondas
a açoitar o tempo
como o vento tresnoitar
os sonhos

ah ! os sonhos !
passam: a espuma e a névoa
quebram-se na calva areia
já cansada
do vai-e-vem do vem-e-vai
das águas desta tarde
inacabada

são trevas sobre os trevos
de três folhas no jardim
lá de casa

nenhum de quatro folhas
pois como sempre
estou sem sorte

( os pássaros passam os ácaros )

acordo nesta ausência
e tudo é claro e ácido
e está ao alcance:

inclusive a morte
(r)adiante

sem dó nem piedade
de nós mesmos
feito fantasma
entre os cancros
dos ramos dos álamos

súbito: um olhar pela porta
revela o âmbito
das estrelas

- e são mais do que pedras -

como o mármore branco
que emoldura o rosto
desta tarde que resta

segunda-feira, 9 de maio de 2011

treva e seda



treva e seda


entre esfinges : o olhar se alvoroça

convulsivo -
não veremos     jamais
elaborar           as tardes
a golpes           de relâmpagos

corpo e carne:

mas o corpo é frágil
e em cortejo
a carne se entrega

à marcha da cadência em rios
de pura lira d'água:

tramamos
as mãos coroadas de cristais !

semicerrados      o horror os consumia
casulos               entre treva e seda
cílios de ouro     ou quase espinhos

- delírios das pálpebras já dissolvidas -