sexta-feira, 8 de abril de 2011

estações

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des
     maio
um rio de pedras
que atormenta ornamenta
minha alma de lesma a mesma
a esmo estou só sem dó ou pó eu mesmo
desvario onde várias acácias
em silêncio sob uma chuva
miúda de maio
jazem

já não há
mais flores ou cores
entre os ramos pois é maio
um arrepio de frio um pio de pássaro
um espaço vazio entre um passo ao abismo
o istmo passado o ninho esfarrapado
o arame farpado do meu coração
a cor do céu em combustão
a flor-de-maio
é fria

caio
no labirinto
do poço onde sinto e ouço
estrias n'água minhas pálpebras
vazias estão as estrelas e são elas entre
os elos destes dédalos os halos
são tão belos nos cabelos
nos capins carmins
odor de jasmim
em mim


soletro
o nome árido
desventro o vento úmido
onde as letras são escarlates escritas
como um fio de lâmina explícita
escorrendo um rio que cresce
e ainda nem chegamos
a ver o arco-íris
em maio

é frio
e mais que
todos frios outonais
escuto omissos sorrisos
dentro em mim solertes segredos
sentidos flertes urdidos nós de sais
e vais assim mesmo de soslaio
sem pedir teu perdão
pois não é maio
é abril

6 comentários:

  1. Olá!
    Agradeço a visita. Acho massa quem escreve em forma de poesia. Eu não consigo.

    Fique bem!

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  2. Nossa Guto, que lindo!!! O primeiro post é de uma força impressionante!

    E este aqui... nossa! de uma magia contagiante ♥

    Muito lindo, poeta!!!

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  3. ah, maio é cheio de úmido, bafeja ventos, abril desprende silêncio, desabre o avesso. Sabe lá onde mais fundo a palavra caça e alcança. Tua poesia pulsa, cintila... beijo!

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  4. É lindo, mesmo lendo de soslaio.
    Um abraço.

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  5. maio me atormenta
    com estrelas
    palavras-cristais
    sibilantes dentro do corpo
    como verão ainda dentro do outono,
    as raízes da goiabeira acolhendo a chuva e aninhando pássaros
    o céu de maio e a solidão no ninho molhado
    fruto se equilibrando na ponta do galho
    já que o ninho pegou no chão seu destino-atalho
    e a goiabeira no quintal
    ficando a esmo
    será mesmo?

    entre o passo e o abismo paro, voam
    suaves e em silêncio as folhas secas dos galhos
    caídas em espiral no vazio de maio
    descasco de frio e ninho já nem é mais
    amo-te pois nas tiras finas das chuvas que desfazem maio

    na solidão do labirinto do poço
    me debruço em passo falso
    e descuidada desço assim:
    água subindo em elipse como lesmas
    através das paredes até a borda
    bem arquitetada cercada de lama e mato
    musgo até a boca que me mastiga vertigem
    dentro do fundo a lua em samambaia me olha
    o eco do osso e o mundo
    subterrâneo do poço
    me revela a mim
    esse áridoco

    maio corre à altura da margem
    seu substrato de labirinto do poço
    rio de brasa e som de água em diapasão
    “ainda nem chegamos” ma já o
    colibri à borda da íris do corpo
    cresce à fina lâmina do olho...

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