sexta-feira, 15 de abril de 2011

realengo - a vida real ( a pátria a(r)mada até os dentes )

realengo - a vida real - ( a pátria a(r)mada até os dentes )


a desmesura da pátria
é o pranto desvairado
do seu povo

sem prato nem comida
interpreta a própria
diáspora

o protesto plangente
estampa e referenda
os imprudentes - peregrinos -

não para o esplendor
dos abantesmas já transcritos
em reticulados relâmpagos

nem um po(l)vo retorcido
entre névoas de incêndios

mas o cenário mais profundo
desta perversa
vida

contra a bruteza
entre purpurinas senescentes
esplêndidas violetas plásticas

e agora sob um templo
entre os muros de lástimas
- cadáveres mínimos

recordo tantos outros
samurais carcomidos
de outrora

por um olhar insinuante
que desvela outra glória
atiça sua fúria espessa
sobre as cabeças - puríssimas -

enquanto lá fora a vida
desta pátria irreal chora
por todos os poros

no recinto que era branco
agora escarlate líquido
estão em silêncio os últimos
- infantes urbanos

somos todos
porcos-espinhos devorando
a vida por entre os dentes

eu vi o mármore cinza
enegrecer de dor
(n)estes versos vivos

em que semeio estrelas
para que o horizonte
não seja causa perdida

sexta-feira, 8 de abril de 2011

estações

estações


des
     maio
um rio de pedras
que atormenta ornamenta
minha alma de lesma a mesma
a esmo estou só sem dó ou pó eu mesmo
desvario onde várias acácias
em silêncio sob uma chuva
miúda de maio
jazem

já não há
mais flores ou cores
entre os ramos pois é maio
um arrepio de frio um pio de pássaro
um espaço vazio entre um passo ao abismo
o istmo passado o ninho esfarrapado
o arame farpado do meu coração
a cor do céu em combustão
a flor-de-maio
é fria

caio
no labirinto
do poço onde sinto e ouço
estrias n'água minhas pálpebras
vazias estão as estrelas e são elas entre
os elos destes dédalos os halos
são tão belos nos cabelos
nos capins carmins
odor de jasmim
em mim


soletro
o nome árido
desventro o vento úmido
onde as letras são escarlates escritas
como um fio de lâmina explícita
escorrendo um rio que cresce
e ainda nem chegamos
a ver o arco-íris
em maio

é frio
e mais que
todos frios outonais
escuto omissos sorrisos
dentro em mim solertes segredos
sentidos flertes urdidos nós de sais
e vais assim mesmo de soslaio
sem pedir teu perdão
pois não é maio
é abril

à luz de uma estrela

à luz de uma estrela


um corvo
a cor do céu turvo
um corpo
tão arco-íris

de ostras ao vento
em flor alçando vôo
entre esferas
olhos de ira

dentro do céu
em cacos coisas soltas
- a lua o sol a terra -

quem dera
o corvo solitário
assombraria todo o chão
entre nuvens - ria -
do coração
já escurecido

onde piso
pé a pé o corpo tísico
que é meu num dilúvio
de estrelas em arrepios

depois rimos
- eu e o corvo - do que brilha

seja lua sol fogo
o branco o negro
o vento trêfego
pois ferrugem
no céu soçobra
mínima

de um véu
descarnando a língua
quase fóssil

suspenso
o corvo viola sentidos
devorando branco
geômetro do olho
tênsil

e eu  -  revirando-me  -
em miúdos silêncios
vendo navios em fragmentos
à luz de uma estrela

terça-feira, 5 de abril de 2011

ciranda

ciranda

o vôo plumário
da ave-paraíso
sob um céu índigo glabro
onde espumas na neblina
rosáceas luas de cálcio

ver a
lamparina de alumínio
entre irisantes libélulas
ao limiar da primavera
num silêncio de garça

as nuvens
entre nuvens
plúvias de grafite
cobrem a varanda
de papoulas

ah ! ciranda de libélulas !
noutros ventos alísios
flutua a auriflama
à deriva

entre estrelas de nácar
turvas asas de seda
de um (a)mor cego
nas órbitas fímbrias
do arco-íris
iluminaria
a minha língua

como um colibri
em equilíbrio oscila
no labirinto de lírios
e brincos de princesa

- um cenário à beira-céu -

risos em multilabros
num fragmento de sopro
soçobrando no vício
em sigilo

nossos dias rudes
sobre a têmpora da tarde
deslizam como um cisne negro 
no lago vítreo

a trégua do escar-
céu cristalino de
liras em tramas
sobre um mar de náuseas
neste espelho d’água
que se move
em (re)colhidas
pálpebras

donzelas em flores
como pássaros que se vão
às copas das grandes árvores 
em declínio

este sol em brisa
nu sobre as vértebras
ventre trêmulo
em silêncio
do orvalho em meus ossos
de argila

entre lábios
sílabas falésias
se estendem
sobre o mármore
do mar
este mar
nu sobre as vértebras
onde a ave-paraíso (re)
pousa na paisagem
e intriga