domingo, 27 de março de 2011

eu sei

eu sei



sei os
dias amarelos
os elos dos dia(s)
amantes
o antes do depois
o após do pó
que rola
da pérola
do olá

ah ! o pó a des(a)
fiar o tempo
onde sei o tempo
o talvez nunca
que sempre foi
e será

( a alma da serpente na palma da mão )

sei os lábios
em ecos sobre dentes
tão brancos como o branco
mais branco do céu
leitoso da boca

sei a escama
dessa oca
              verna
de vermes
onde a língua acrobata
drena e densa
a retesar como grua
a sua

sei o tesão
louco que eu sinto
amor epilético - antes tarde do que eunuco -
( dizia oswaldo wronski em letra de forma )
mas jamais
saberei do já
da teia dos (s)ais
do vôo da aranha
no ar da manhã

já sei
o fim do sol
dessa imensidão
no crepúsculo surdo
a arder em versos
contra o coração
como um sopro
de sol
i
dão

sei agora
o enigma das palavras
que se curvam a (des)
construir lampejos
de relâmpagos
em algum
lugar nenhum(a)
há uma
passagem

sei também
desta paisagem
que lá fora pela janela
dá contorno aos dias
insanos sonâmbulos
que passei
em imagem

sei tudo
e nada sei do temor
do amor pretérito
que arde no peito
rare
      feito um tambor
ma(i)s que (im)perfeito
irrequieto

é tarde
e o esboço da noite
oculta as estrelas – elas que estão lá -
onde um dia estarei
cúmplice da luz
do silêncio

- ah ! disso eu sei !

2 comentários:

  1. ..sei-me violeta entre o verde dos teus cabelos dentro da noite, semeio ventre na luminância das tardes como girassóis nas conchas e nas bordas do poço que habita o interior de difusos jardins, sei da solidão atrás das vozes e das falas presas em arames farpados, sei da lua embaçada na vidraça do vasculhante e dos fins de tardes voando dos prédios como urubus que a noite engana, sei dos homens nas praças nas ruas e nos becos desabitados carregando seus horizontes nos vincos das mãos e entre as unhas como um escorpião, os homens nus com seus vínculos que o pó, auto-retratos e frascos pela metade sobre a cômoda lançam na terra como um raio último de tempestade, sei dos peixes fisgando a isca e das guelras nos ouvidos da rede, sei do infinito de uma noite no porão da memória e das crianças mortas no ventre esperando qualquer aurora de não nascer, sei das libélulas abrindo auroras como flores que no silêncio desabrocham com suavidade e bruta força de um búfalo que chora se choca com o vento nos olhos como garças em mergulho no ermo do tempo, abrem-se então o figo o pêssego o lábio e um céu de goiaba na boca à farta quentura da luz e da força que a noite engendra... sei das asas abrindo poros e bocas onde o lábio tudo alcança e se lança a si mesmo aí é a palavra em brasa atravessando-me campo florido de mar e ametistas líricas marulhando fundo de águas com ervas, algas, mórulas, espumas de sal e nuvens descobrindo a íntima fímbria da face...

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  2. As imagens que esse poema despertam são demasiadamente fortes. Belíssimo.

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