quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

arquiteto


arquiteto

(ag)ora
o cenário do céu
sem céu e que – as estrelas sabem –
o crepúsculo urra no tédio

eu – arquiteto de cárceres
da memória do cinzazul
desnudo
do que fui
além distante

uma e outra
palavra se esvazia

no grito dos olhos
já fúnebres
urdindo a poesia

minha voz
já amarga (n)os tentáculos
do tempo e as pedras
que me consomem

este poeta
de ecos desva
irados
(ex)pira e (ex)trai
(d)as rochas duras
(d)o seu caminho
polindo as unhas

há rugas no papel
entretecido onde a poesia

sorvendo labirintos de granito
explora todo sibilar
do seu enigma

a pedra se faz poema

e verte poesia
do próprio ventre
bruta não - quase-paraíso -

mas fragmentos
sobre a língua
vestida de fantasmas
e viagens num gueto âmbar
sem saída

eu – arquiteto de cárceres
da memória do cinzazul
desnudo do que fui

além distante

sevilla [ dança da tragédia ]


sevilla  -   [ dança da tragédia ]


I.

surge
rindo entre
labirintos de mármore
como a jóia rara lapidada
o excesso de beleza ou feiúra
feito touro miúra em plena arena

II.

o silêncio
vigora aqui e agora
no azul sagrado dos céus
a platéia amplitude modulada
de olhos rútilos intermitentes cala
a morte vestida de morte na espada

III.

este lugar
onde o sangue
se esvai pelas narinas
de amplo salão de pó explora
a plena luz orienta-se ao sol dos dias
e o touro negro de aspas afiadas não cessa

IV.

eu vi a língua
do mais profundo jorrar
da garganta pétrea o líquido
viscoso caliente azulavermelhado
coagular os silentes olhares dos milhares
no contracéu da perpétua ante-sala dantesca

V.

no horizonte
flores soltas ao léu
entre lenços e chapéus
sorrisos e palmas (ab)surdas
seiva a escorrer por entre a poeira
e sob a máscara do homem sobre o dragão

VI.

diante de cada
um se retorce a fera
que recusa-se e faz-se diamante
negro em seu furor causa desespero
na multidão a qual se comparte em dor
e deslinda a (l)ira que medra a cena ao ar-livre

VII.

a tragédia
em gestos derradeiros
o desafio a fio tecido no peito
agora a chuva resta em meus ombros
a morte ao sol latejando até o último instante
gira no ar a carcaça e cumprem as pálpebras o destino

círculos

círculos



a
cor
dei
às estrelas
na paisagem do rio
que está na memória
espessa

a vida
que se vive
diária mente
como um cio
fuindo rente
e ir até aflorar
ao ex
tremo
sobre o mármore
mais tenro
e é difícil saber
entre as árvores
da lama exposta: quem será que amei ?

- (d)os sonhos (in)versos ?
- (d)as so(m)bras (in)vernais ?

este rio se esvai
triste em sangria
do ventre
(d)a pedra contígua
(d)o corte onde o rio
se espalha ao mar
espelho de si mesmo
onde
a
dor
meço