sexta-feira, 15 de outubro de 2010

o último diálogo


o último diálogo




Artriste:

brilha o olho do corvo
em vigília como o sol turvo


suicida-te póstuma poesia
silente na encosta bravia


onde meu corpo se atreve
entre teu corpo que emerge



Melancolia:

oh ! cúmplice dos incensos
de perfumes raros aos ventos


teu cotidiano não tem (a)preço ?


Artriste:

sou eu partindo-me ao meio
sou eu esvaindo-me entre

possuído e contemplando tremes


Melancolia:

pronuncio teu nome possessivo
onde não silencias e te resignas



Artriste:

rendo-me:

não temo a solidão tão perto
tão longe e tão concreta -

isto não me desespera


Melancolia:

leva-me sem temer palavras ásperas ?


Artriste:

levo-te dentro por inteira sem rumo
seiva que sentia o que te sinto
em meus sonhos em lascas e sumos



Melancolia:

há outra estrela em tuas mãos -
brilha mais que a minha ?
e o meu sonho tecido nas tensões ?


imploro-te: leva-me como troféu
porque me parti em dúvidas aos céus



Artriste:

não há no orvalho estrela alguma
que arquitetas senão si mesma na penumbra


o destino é algo infinito
e infinito sou contínuo e maldito


tênue te encontrarei em teus (en)cantos
em meus poemas-sombras e em prantos



Melancolia:

descobriremos juntos esta solidão
até que a retina se feche em silêncio

e reste a dor íntima precisa ou não


Artriste:

intenso o poema perdido –
vago nesse mar onde o mar não é
náufrago - mas raso e de vidro -


qual espelho onde espero vivo
alvo desta armadilha da rotina
já sem pulso e sem ruído ?



Melancolia:

que sou – aquilo que insinuas
a golpes nos flancos e carinhos de unhas ?



Artriste:

não – não posso ser o olhar do corvo
que me vigia e corta e brilha
mas suporto até o fim o fogo
de tudo que me persegue e domina

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