sábado, 16 de outubro de 2010

vôo sonhado


vôo sonhado



da calçada de pedra cal
alça vôo a caça cauda lírica

- carcaça em arco estral -

náufraga de escarpas cerradas

é couraça
de cristal
que trinca na tarde
entremeada às traças

o branco do céu
em mantra nesta cortina
densa de (r)astros ergue-se
uma correnteza de tramas

nos meandros da sombra
vertem fragrâncias de frascos
do ventre à vértebra
inerte que afronta

(re)pousa
ao revérbero dos olhos
onde rochas tremem
em trevas
sentidos secretos dos poros

- de espáduas amplas -


que bradas ?
se recusa no crepúsculo tecer
traços (ex)traídos da palavra ?

- o hálito -

em pó sem asas
cumpre o hábito
ato pró-
digo - de quase estorvo -
estuar o último vôo
ao troar do corvo
tão só

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

pêndulo



pêndulo




o corpo se adorna:

cortiça citrina medula
liquefeito em gozosas virilhas
de vênulas púrpuras


mas vi
lótus em delírios
em pó pelas pupilas
onde a paisagem se trans-
figura em cílios
de semicerrados olhos
sob preci(o)sas sílabas


o corpo:


insinua e enclausura
ao ponto de soçobrar
açuladas liras
em incêndios uníssonos
nesta noite de texturas 

contemplação


contemplação


uma sede de absintos
jamais ingerida
combustão em silêncio
e de espanto – o albatroz que se agoniza:

habita em algas

ainda que longe e à deriva
no labirinto mais pro-
fundo de si mesmo
em retitude
palinuro de vôos fulminantes
que em firulas altas ou rasas

- contumaz -

e para espanto
a seus olhos se perfaz

plangente controverso – corpo inteiro -
aos dias vêm se recolher
puríssimo

vôo infinito


vôo infinito


ah ! poeta !
porque brincas
com um disparo na testa

se nas frinchas
do silêncio se infiltra
um vento farpado ?

não é por acaso
que o céu registra
versos sem prazo

que ornam o hálito
de estrelas súbitas
ao inimigo tácito ?

mar vermelho


mar vermelho




abro os olhos

alvo roço
a língua áspera
ínsula alegoria
a altear a pálpebra
nesta elegia

inútil partir
o lacre desta colheita
abrupta à alma em carne viva !?

- a morte me sepulta -

o sonho é tédio
sonho o duro fardo
deste sonho ébrio
sem rédea

a lágrima amarga
se desnuda na pálpebra
se a pedra
[ que não seja regra ]
um mar vermelho
sem fio não (es)cava

o último diálogo


o último diálogo




Artriste:

brilha o olho do corvo
em vigília como o sol turvo


suicida-te póstuma poesia
silente na encosta bravia


onde meu corpo se atreve
entre teu corpo que emerge



Melancolia:

oh ! cúmplice dos incensos
de perfumes raros aos ventos


teu cotidiano não tem (a)preço ?


Artriste:

sou eu partindo-me ao meio
sou eu esvaindo-me entre

possuído e contemplando tremes


Melancolia:

pronuncio teu nome possessivo
onde não silencias e te resignas



Artriste:

rendo-me:

não temo a solidão tão perto
tão longe e tão concreta -

isto não me desespera


Melancolia:

leva-me sem temer palavras ásperas ?


Artriste:

levo-te dentro por inteira sem rumo
seiva que sentia o que te sinto
em meus sonhos em lascas e sumos



Melancolia:

há outra estrela em tuas mãos -
brilha mais que a minha ?
e o meu sonho tecido nas tensões ?


imploro-te: leva-me como troféu
porque me parti em dúvidas aos céus



Artriste:

não há no orvalho estrela alguma
que arquitetas senão si mesma na penumbra


o destino é algo infinito
e infinito sou contínuo e maldito


tênue te encontrarei em teus (en)cantos
em meus poemas-sombras e em prantos



Melancolia:

descobriremos juntos esta solidão
até que a retina se feche em silêncio

e reste a dor íntima precisa ou não


Artriste:

intenso o poema perdido –
vago nesse mar onde o mar não é
náufrago - mas raso e de vidro -


qual espelho onde espero vivo
alvo desta armadilha da rotina
já sem pulso e sem ruído ?



Melancolia:

que sou – aquilo que insinuas
a golpes nos flancos e carinhos de unhas ?



Artriste:

não – não posso ser o olhar do corvo
que me vigia e corta e brilha
mas suporto até o fim o fogo
de tudo que me persegue e domina

céu de bétulas


céu de bétulas



basta ! o castigo de todas as trevas !
os (im)pulsos do tic-tac em doses certas
ouvindo ruídos por entre as vértebras

tardo e tudo já é passado a limpo
entre temporais salpicados de bétulas
um acorde de soluços de nervos eu sinto

despertar a ampulheta do silêncio
entre os dias de vestígios dentro
ávido do avesso onde persiste o incenso

atravessando-me poros em nódulos
finda a noite sem saber-te se engendro
o vidro ósseo dos olhos póstumos

dilacerando denso o dorso do tronco
este sopro tombado de rubra seiva
de veios em veias nas vasilhas do corpo

são rasas as palavras dentro em mim
invadindo-me dementes pelas ventas
de meus escombros ditando sem fim

o ritmo constelado do eterno descanso
que escasso aspiro o ar frio e estremeço
devorados suspiros severos e insanos
 

escarcéunário - o último sonho

escarcéunário - o último sonho

1.


ando sobre meus ombros meus assombros
meus escombros
meus sonhos meus risonhos 
medito dissolvidos sóis e sou o que não sou

o que sou e não sou o que sou e o que sou
querem e não quero o que são quero-quero

2.


só eu sei os medos os desejos os latejos
os segredos dos meus segredos dos teus
dos (n)ossos segredos todos que nunca ob-
tivemos todos os nós que ataram-me
nesse frágil cenário de um céu sem céu algum
nenhum escarcéu nem unzinho só céuzinho

3.


quisera o tempo des(a)fiar esta dor indolor
sem cor sem sangre e ainda resta a dor
diária da fratura (ex)posta um rumor
do que somos e somos os nossos sonhos
somos os medos os medossonhos os insossos sonos
insones o que somos o que sonhamos somos
- somos o que somos o que somos -

o quê ? o quê ? o quê ? o quê ? o quê ?

4.

eis-me confessor
de mim mesmo das vértebras
que bradam às pressas escrevendo teu nome
no silêncio do cio do céu do escarcéu onde tudo é
raso e se derr(ama) em salivas nas unhas nas garras
nos olhos salferidos de sorrisos da medusa
não sei por qual momento me calo se meu calo
dói ou se doeu ou se me dôo todo por inteiro
sobretudo sobre a poesia sobre a teoria sobre
a alegria sobre a sangria sobre a alergia sobre
a letargia que sinto sobre tudo e sobre todos
sobre nós

5.

das palavras que (es)cravo que me atrevo
a te dizer o que
traço o que trago dentro
de mim que me afogo em planos sem fundo
e forma tremeluzindo nesta noite como vaga-
lume eu te daria uma luz um sorriso mas nem tudo
que quero será devorado o que sou pelas minhas
veias pelas minhas teias e por todos e por tudo
(m)ais que posso dar eu não sei se posso dar

6.

pelas alegorias da palma da minha mão
onde caminhos suspensos me levam a nada
quem em sonhos ou desejos me levam
a algum lugar que não absurdo ?
- hay sangre em mi palabras -
fiz brotar rotas em mares que me encantam
em sonhos que minha ira descansa agreste
estou deixando rastros em pensamentos
me vou

7.

agora me atrevo com esta línguagridoce
com vontade contínua tecendo versos de vidro
insinuo o passo a passo a passo e passo a língua
em teu rosto áspero encardido de sol de vento
de frio uma lâmina lisa e fina o fio que pressinto
envolvendo-me em sonhos e nuevos sueños
que restam e só o que me resta neste

a
b
i
s
m
o

neste istmo
é este poema
este pó
este
est
es
e
em cada lacuna que me fere em cada boca
que me insere de veneno de beijos de dentes
de degredos me visto de espantalho espanto-as
rugas do meu corpo e toda a emoção que sinto
que sonho que sou que soubera ser sonhando

o crepúsculo


o crepúsculo




os dias suspensos
em tempor-
ais de vidro
que a distância arde

é a crista do crepúsculo
nas entrelinhas
no calendário
da tarde

- estreito é o tempo -

à deriva se des-
cortina
cabendo o vazio
dentro

a palavra insone vaza
- invisível e sólida -
de solidão embriagada

em pó e irados
- olhos desventrados -
estão meus poros

é preciso ouvir
o silêncio dos ossos
que está por
vir

os medos
entorpecidos
vestidos de cor
agem

- vivos e indecisos -

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

lâmina de vidro


lâmina de vidro



nós
que vivemos solitários
em gravuras indigestas

tudo o que fazemos
não é findo nem começo
somos parte desta f(r)esta

não há tempo para temer
para caber em tanta dor
tudo é tanto é ter ou não ter !

ah ! (ar)dor !
por que me nutres
a carne deste corpo
- um não de porcelana -
no alforge deste couro ?

um sonho
em vão se esvai
do que jamais se (ob)teve

entre o pudor e o fardo
o sentido rumor do brado
o medo que temos da dor
nos rasga em cicatrizes

em dobro cavemos 
para escrevermos com falanges
o que não existe e inflama
lâmina que (des)cortina como alfange
(a)o fundo da vasilha que se derrama

somos rapinas de nós mesmos
neste silêncio extremo e imenso
nós que vivemos covardes
nas ranhuras de todas as tardes

paraíso - um sopro de véspera


paraíso - um sopro de véspera



onde suspenso
o sonho após o sonho do canto
agora adversa e indigesta
à véspera de um dia de espanto

és a gárgula
de afogadas falésias
entre o fôlego e o fósforo riscado
de vigorosos sonhos delírios

invasores
roubam-lhe a chama
em combustão - de líquido viscoso -
varrendo-lhe centelhas de relâmpagos

- solitária ninfa entre fantasmas e anjos fulvos -

já se põe
o sol em teus meandros
entremeado aos rios esculpidos
em rochas inquisidoras e aturdidas

de todas as mãos
que tocam os cabelos
no fundo das correntes e te sobem
com os dentes rangendo até os pêlos

em latejo
tens (n)as virilhas
entreabertas em brasa e saliva
a língua sobre o templo que cintila

- solitária ninfa entre fantasmas e anjos fulvos -

vislumbras
o paraíso num inferno
e noutro e mais outro - explodes -
em ruínas e escamas ao desespero

exclamas
e recordas dos delírios
embora o labirinto que te devora
não lhe permita noites de fascínios

diante de mim
já adormeces sonhos
e os invasores do teu (en)canto
se arrastam em intrigas:

- solitária ninfa entre fantasmas e anjos fulvos -

agora sonhas sedas
os olhos onívoros
em polvorosa brisas

reflexões


reflexões






1.

há minas
em mim em explosões
desventrando-me e cem
ou mais reflexões

2.

fizeram-me
pensar nas horas
e tantas do pulsar
de meu corpo de forma inédita
neste céu vítreo onde desen-
cavo espessos fantasmas espessos

3.

agora
mesmo agora
estou aqui sem padre
nem madre numa fria
nesta manhã em que me meti

4.

um cancro
me revolve

há tempos tenho pó dentro
de mim não tenho dó e não sei

onde isso tudo vai parar
como se parar fosse o caminho
e morrer fosse outro caminho

5.

entre
o paraíso e o inferno
não consigo sair dessa
nem com reza nem com ajuda
de judas deuses demônios
e do gato de botas

6.

estou aqui
ancorado lado a lado
num relance de dados
estalando dedos iodados
onde ando sorvendo tua ira
contra tudo e contra mim
e contra todos que te arremessam
pedras nesse lixo cru abismo

7.

assim
como eu acenava
com a vida por um fio
ouvias os surdos nadas
ardendo pelas bordas inteiras
as texturas das armadilhas

8.

à procura
da véspera
lascas de carnes
expuseram-me teus ossos
em trapos e tudo que posso
no fosso (a)fundo traço
planos vários em retr
atos

9.

estou farto
desta línguaviva
solta e distante
que nos envolve
de saliva a vulva
que me mastiga
que te castiga
as fendas tecidas

10.

estou farto
desta poesia sem azia
sem língua e má digestão
que se perde anárquica
abortiva sem combustão
mas viva a(l)tiva incerta
(am)arrotada

11.

não quero
o poema áspero e frio
sem riso rangendo
dentes conciso ao avesso
quero o poema esvaindo-se
(s)em demônios em silêncios
soltos e suicidas

12.

- quero o poema mudo -