sábado, 18 de setembro de 2010

pálpebras em teia


pálpebras em teia 



vou escrever um poema
sobre qualquer coisa: inédito

o poeta
jamais carrega a palavra
ao ritmo das coisas insanas

é o poeta insano
aqui e agora que converge
tudo e a todos aos instantes
e verga a alma que o aflige

de pulsos sulcos saltos
que busca em pulos distantes

- insólito

tão somente
onde o poema se faz memória
embriagado tece o veludo da palavra
como se lavra a trêfega terra

ausente de si mesmo e de tudo
e de todos que o cercam
que o amam em segredo

o poeta assim como o homem
cavalga imutável o tempo
e não sabe o medo

vou examinar o poema:

sair dele como se sai
pela porta após fechá-la

- devorado e inevitável -

esta palavra que me é tardia
como a febre prévia anoitece
em queda a alma vadia

há a nostalgia do possível
esse (des)caminho desesperado
mas também há a perda
do que jamais existiu

o poeta e o homem
no desenlace da palavra
e do poema solo

só e em silêncio se retira
sem o inédito e o insólito
muito menos o poema logo

despedida


despedida 



este é o poeta tramando seu poema
aqui e agora ao vivo à todos escreve
iniciando pelo que ainda vale a pena
o humor negro do dia que se atreve

uma fresta entre a porta e a parede
uma fenestra entre a faca e a sede

é o poeta indo para sempre embora
fechando para sempre a sua porta
mesmo que lhe peçam até a aurora
sua poesia fluiria completamente torta

para ficar neste recinto
vai dizer-lhes:
 oh ! eu sinto !

já se vai o poeta a passos largos
talvez nunca mais volte ou volte !?
sua revolta é a revolta dos fracos
onde (re)vive sua vida de pouca sorte

sonhos sinuosos sem destino
neste incensário de sol a pino

lá se foi o poeta com seus horrores
por aqui deixou - quem sabe - amor(es)
e sobre os espessos ombros da sombra
jamais retornará ao cenário de sua obra

vai o poeta na agonia mais profunda
onde um fio de sol medita em sua urna

tempo tempo tempo


tempo tempo tempo



- tempo -

não tenho o encanto
extraviado e imutável ao léu
nem o mantra do momento


habitar é preciso (n)essa solidão ?

o sol lodoso reverte o teu olhar
sobre o meu olhar já dissolvido

- tempo -

não quero o quebranto
extasiado e imóvel no céu
nem o canto do isolamento


navegar é conciso nessa amplidão ?

o cio ocioso e inerte do teu olhar
sobre o meu olhar já convertido


- tempo -

não sonho o lamento
extenso e intolerável troféu
nem minto meu argumento


remirar é indiviso nessa colisão ?

o frio odioso e solerte do teu olhar
sobre o meu olhar já amortecido