domingo, 18 de julho de 2010

hagoromo - o manto de plumas

hagoromo - o manto de plumas


pescador:


vento veloz -
singram barcos ao largo
da baía de miho (1)

pescadores ditam
a rota marítima
das ondas


pescador:

sou hakuryô
pescador do pinheiral de miho (1)

acima dos altos
e belos cimos
nuvens céleres se dissipam

a chuva se esvai
ao clarão da lua
sobre a torre


calma estação
o pinheiral espera
a primavera:

a bruma da aurora
sobre as ondas infindas

a lua paralisa a visão

cena que transborda o coração
do memorável céu

inesquecível ! ao meter-se
nos atalhos dos montes -
a baía de miho

ao paraíso -
juntos iremos juntos
para lá iremos

vemos nuvens ao vento
que se movem similares as ondas
elevando-se do mar

os pescadores retornam
sem pescar ?

um instante ! é primavera !
um vento suave sopra cedo
entre perenes ciprestes

suaves ondas nas manhãs amenas

centenas de barcos

humildes barcos às centenas
com pescadores


hakuryô:

trilho os pinheirais de miho
onde contemplo a baía:
inolvidável

do amplo céu cai
uma chuva de pétalas -

tendões de vidro

percebo suaves sons
e um aroma que se dissipa
em todos os rumos

paro penso e vejo:
um manto formoso
raro e suspenso

aproximo-me
e miro : admiro
sua cor-aroma

ah! manto sublime !
vou colhê-lo e retornar
para mostrá-lo aos antigos

vou convertê-lo
lá em minha casa
em relíquia


tennin:

ouve: esse manto é meu !
por que o levas ?


hakuryô:

esse manto encontrei-o aqui -
por isso carrego-o
embora para casa


tennin:

esse manto de plumas
não pode ser levado pelos homens
é um sopro divino

deixe-o onde encontrou !


hakuryô:

esse manto de plumas
vem do céu ?
seria de algum anjo ?

por ser algo raro
vou preservá-lo e torná-lo
o tesouro do reino


não posso devolver o manto !


tennin:

ah ! que grande aflição !
sem o manto de plumas
meu vôo cessaria !

como retornar aos céus ?
imploro-te: devolva-me
o manto divino !


hakuryô:

tuas súplicas
não me demovem e ouví-lo
mais forças deu-me ainda !

sou hakuryô - o indomável -
e velarei o manto de plumas
não devolverei esse manto

e para casa partirei


tennin:

e agora: sou ave sem asas 
querendo voar não posso
sem o manto divino


hakuryô:

aqui é a terra !
- resida entre os homens -
(n)este mundo ínfimo


tennin:

desolado estou -
não sei o que faço
o que me resta ?


hakuryô:

não lhe restituirei
- apesar do seu ar triste -
o manto de plumas


tennin:

desalento é o que sinto...


coro:

um florvalhar de lágrimas
como pérolas de cristal
caindo pelos cabelos

grinaldas adornadas
por pétalas de lótus
fenecidas

tentáculos de visão:
sobre os olhos do anjo
em declínio (2)


tennin:

se volto aos céus
me envolve
a densa névoa

indistinto o rumo
para as nuvens:
incerto é meu destino


coro:

visão do céu:
alaridos entre nuvens
onde está minha morada

o canto familiar
do karyôbinga (3)

ave-paraíso alado
de doce (en)canto
do karyôbinga

desalento: já nem ouve

aves em escarcéu
vozes sem fim
vão além do céu

que voltam por rumos divinos

andorinhas e gaivotas
sobrevoando o mar alto
num vai-e-vem

um sopro de brisa
à beira-céu
saudades da primavera !?


hakuryô:

contemplar teu rosto triste (4)
me desalenta -
devolvo-te o manto divino


tennin:

um encanto me toma !
como uma bela música
recebê-lo-ei


hakuryô:

espere: ouvi sobre as danças angelicais
- o manto te devolvo -
se dançares

tennin:

ah ! grande alegria !
sem tardar
poderei retornar aos céus 

para exprimir
a imensa alegria que sinto
dançarei uma dança lembrança

para o vosso
divertimento
em torno do palácio-lua (5)

agora dançarei aos homens
em tormento

mas preciso do manto divino
para bailar


hakuryô:

não ! se devolvo-te o manto
voarás aos céus
e jamais dançarás !


tennin:

não há perfídia nos céus
isso é inerente aos homens


hakuryô:

oh ! perdão !
tome o manto divino


tennin:

já vestida com asas de plumas
vai bailando a donzela
a dança arco-íris (6)


hakuryô:

o manto divino
flutua no céu leitoso
ao sopro do vento


tennin:

mangas de pétalas
úmidas pela chuva
miúda e fria


hakuryô:

ao som da melodia !


tennin:

dançando !


coro:

surugamai - a canção do leste (7)
é uma diversão à parte
a dança do sol nascente

neste tempo
o céu limpo foi criado
- semprecéu é seu nome -

doravante tempos remotos
elevaram-se de dois deuses (8)

que deram origem
a dez rumos do universo

neste tempo
o céu limpo foi criado
- céu eterno foi chamado -

o céu : circunscrito
céu perene
foi denominado


tennin:

é eterno enquanto dura
- refeito com pedra-jade -
o palácio-lua


coro:

em mantos brancos
anjos rondam os arcanos do céu
em mantos negros

evoluem em trinta divididos
em dois pares de quinze
(9)

em noturnas luas
donzelas divinas dançam
uma após a outra

tennin:

sou uma donzela divina !


coro:

compartilho
da árvore-lua (10)
paraíso num só tempo

exibo a dança surugamai
ao sol nascente e conduzo
ao mundo esta canção

como pétala voa
dançarina da primavera
da árvore-lua

plana sobre a terra ampla
toda plenitude primaveril
com asas de papel

deslumbra a visão
o diadema de vidro
do beira-céu

é primavera em alaridos -
encantada com a bruma
cigarra sobre a pedra


vejam ! o excelso do céu !
brisas divinas voláteis
soprem a porta das nuvens !

oh ! donzela !
por um instante
voe sobre nós

desde os ciprestes
contemplamos a primavera-cor
do cabo de miho
o luar sobre a baía de kyomi
o eterno fuji envolto -
pela aurora florida

ondas e brisas
serenam a baía na aurora
entre os ciprestes

jamais se separam
céu limpo e terra ampla
- longilíneo horizonte -

nem a lua se veste
neste império nascente
deuses descendentes (11)


tennin:

ao palácio-lua do soberano
por breves instantes sobrevoa
um manto de plumas - divino e raro


coro:

o rochedo de jade perdura
esvoaçam ondulando as plumas -
um toque-de-seda

é inolvidável ouvir
trilhado por melodias suaves
o canto nascente
vozes flautas harpas
levitando além de nacos
de solitárias nuvens 

no rubro olhar do sol ruivo
o monte shumi espelha:
relvas verdes-ondas
oscilantes de ukishima (12)
tempestade de pétalas
varrem o céu


nuvens mangas
do alvo torvelinho
dançam seu esplendor


tennin:

reverência e louvor
ao supremo da lua
sua origem é sua força extrema (13)


coro:

a dança do sol nascente

tennin:

um manto do céu profundo


coro:

um manto arco-íris: primavera

tennin:

cor-aroma
o céu vestido de donzela -
inesquecível !


coro:

à esquerda e à direita
pétalas de lótus ornam
suavemente as mangas

esvoaçam
sinuosas e agitadas -
as mangas dançarinas

baila
o álacre sol nascente
vários bailados 

o anjo - cândido -
como a lua no céu limpo
ao fim da segunda semana (a)tinge:
a lua clara bela e rara

vários tesouros-veneráveis chovem
e ao reino dá o manto
guardado à sete-chaves

o tempo passa
assim como o vento -
o manto de plumas

sobre o pinheiral de miho
nuvens de ukishima sobre
os cumes de ashitaka e do fujiyama (14)

sublimes !
dissolvem-se no céu
do além-céu

sempre esvoaça
imutável no semprecéu
o manto de plumas

a visão se extravia: cálidocosmos


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Uma das peças mais famosas do repertório nô, é "Hagoromo -
O Manto de Plumas", que tem uma " transcriação / tradução "
para o português,feita pelo poeta e tradutor Haroldo de Cam-
pos. Ele recebeu de Darci Yasuco Kusano ( especializada em
teatro Nô) um texto bilingue de Hagoromo, uma versão peda-
gógica, preparada juntamente com a professora Elza Taeko
Doi, que consistia em uma tradução, linha a linha de uma
transcriação fônica, uma versão literal na ordem sintática
japonesa, e, uma segunda versão já normativizada, ou seja,
havia uma tradução completa, dos pictogramas e ideogramas
japoneses, para o japonês ocidental,e por sua vez uma tradu-
ção para o português. Foi daí, que Haroldo de Campos partiu
para sua transcriação/tradução de Hagoromo, que por sinal
sinal, ao meu ver, é melhor do que a versão pedagógica das
professoras, pois ele acrescentou a sua poesia à tradução.

hagoromo – o manto de plumas

Hagoromo, o Manto de Plumas pode ser resumido como um
grande haicai ou um poema-peça dançado, que apresenta
dois personagens antagônicos: Hakuryô, um pescador de co-
ração pétreo da Baía de Miho, e Tennin, anjo-donzela budis-
ta que volta à Terra para recuperar Hagoromo, o manto di-
vino sem o qual não poderá retornar ao céu. Após tristes sú-
plicas do anjo agonizante, o intransigente pescador se como-
ve e resolve devolver-lhe o objeto precioso. Mas antes,Ten-
nin deverá lhe conceder uma dança com seu manto celestial.


TEATRO NÔ (NOH)

Nô, Nou ou Noh (Japonês) é uma forma clássica de teatro
profissional japonês,que combina canto, pantomima, músi-
ca e poesia. As atuais companhias de Noh estão localizadas
em Tokyo, Osaka e Kyoto. Interpretado apenas por atores
masculinos, que passam sua arte pela tradição familiar.
É uma das formas mais importantes do drama musical clás-
sico japonês, executado desde o século XIV. Evoluiu de ou-
tras formas teatrais, aristocráticas e populares, incluindo o
Dengaku, Shirabyoshi e Gagaku. Suas raízes podem ser en-
contradas no Nuo - uma forma de teatro da China.

Um de seus mais importantes dramaturgos foi Zeami Moto-
kiyo. Por seu lado, deu origem a outras formas dramáticas
como o Kabuki. O " Noh " é caracterizado pelo seu estilo
lento, de postura ereta, rígida, de movimentos sutis, bem
como pelo uso de máscaras típicas. Possui em Zeami Moto-
kiyo (1363-1443) o codificador maior dessa arte. Com um
repertório de aproximadamente 250 peças, o universo Noh
é habitado por deuses, guerreiros e mulheres enlouqueci-
das, às voltas com os mistérios do espírito.O foco da nar-
rativa se encontra no protagonista (shite),o único que por-
ta uma máscara. Shite é um espírito errante que exprime,
de forma lírica, a nostalgia dos tempos passados. O coad-
juvante (waki), geralmente um monge, não interfere no
curso da ação,apenas é revelador da essência do shite.Um
coro e quatro instrumentos auxiliam na condução da trama,
que se soluciona através da dança. Esse coro,vale destacar,
possui uma função dramática decisiva, conduzindo a narra-
tiva.O " Noh " é a fusão de poesia, teatro, bailado, música
vocal e instrumental e máscaras.Os diversos elementos mu-
sicais são estreitamente entrelaçados numa simbiose entre
o canto e a pantomima. No Noh, a descrição de cada cena
repousa unicamente no texto do canto, nos gestos e nos
movimentos do ator.
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HAGOROMO - O MANTO DE PLUMAS / MINHA VERSÃO

Minha versão consiste numa transcriação das duas traduções.
Uma comparação entre uma e outra. A partir daí, recriei
Hagoromo sob a minha visão. Menos complexa que as duas
mencionadas,mas mantendo o mesmo sentido poético. Não
tenho a pretensão de ser melhor nem pior. Apenas estabele-
cer a minha visão de Hagoromo.
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Hagoromo - O manto de Plumas, é uma peça do teatro Nô
japonês, escrita por Motokyio Zeami ( 1363-1443 ) trata-se
de uma peça que mais parece um longo poema, o qual foi
comparado a um "HAICAI" amplificado, pois só alguns mo-
mentos são enfocados - os de máxima intensidade - e ape-
nas sugerindo o restante do drama. é uma breve composi-
ção que pode ser vista como uma dança ou um poema dan-
çado ou uma elaborada metáfora dançante. o leitor terá à
sua disposição notas sobre o texto,onde se explica algumas
passagens, para que ele compreenda melhor a peça. boa
leitura.

Notas

1. Pinheiral de Miho: praia ao sul do porto de shimizu (ilha

de hônshu), bordeada por um pinheiral (província de suruga).
do local têm-se uma vista magnífica do monte Fuji;

2. Gosui: cinco estigmas - quando um ser celeste está para
morrer aparecem os sintomas seguintes: flores do seu diade-
ma murcham; suas vestes cobrem-se de poeira; das axilas
brotam o suor; as pálpebras tremem e o cansaço o toma;

3. Karyôbinga: pássaro de canto maravilhoso. pássaro do pa-
raíso budista;

4. Hakuryô: malícia do velho pescador. impõe a ninfa da lua
(anjo-donzela) suas condições, sob pena de reduzí-la ao exí-
lio das terras sombrias, antes de devolver o manto.

5. O budismo considera a lua, domínio do monarca da lua,

que habita um esplêndido palácio,servido por donzelas celes-
tes. aqui denominado de " palácio-lua " ;

6. Dança arco-íris: referência a dança das donzelas celestes;

7. Surugamai: dança da província de suruga ou região leste,
do sol nascente; aqui uso o termo "sol nascente". referên-
cia ao reino ou ao império do japão, como é conhecido até

hoje o país;

8. Dois deuses: nijin - deus izanagi (leia-se izanagui) e a
deusa izanami. pai e mão dos deuses no panteão xintoísta;

9. São 30 anjos. 15 de mantos brancos e 15 de mantos ne-
gros. na lua cheia, concorrem e dançam juntos, todos de
branco;

10. Árvore-lua: katsura - planta lunar. cássia ou cinamomo;

11. Deuses descendentes: referência à deusa amaterasu ô-
mikami, divindade solar, iluminadora do céu do panteão
xintoísta;

12. Oscilantes de ukishima: ilhas balouçantes de ukishima.
ventos oscilantes;

13. Força extrema: daiseishi - grande bodhisattva / terceira
pessoa da trindade búdica - " sei " significa força, energia -
já " shi " quer dizer extrema, excessiva;

14. Ashitaka: monte que segue em altitude, o monte Fuji;

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referência bibliográfica: hagoromo de zeami, CAMPOS
Haroldo de (1929 / 2003) - transcriação do original ja-
ponês hagoromo zeami / Editora Estação da Liberdade;

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