quinta-feira, 8 de julho de 2010

atmosfera âmbar ( o fôlego das metáforas )

atmosfera âmbar
( livro três / o fôlego das metáforas )
em quatro cenas:

- a solidão do céu
- as trevas suspensas
- o céu de corvos
- o purgatório


os personagens
o poeta
o pianista
a dançarina
o bêbado
o barman

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cena um ( a solidão do céu )

o poeta

curvo-me à sombra de risonhos bocejos en
cravados sob átomos polidos onde vermes
de mim mesmo anoitecem seus fantasmas
náufragos nervosos fios de baba salobra

rigorosos olhos onívoros odores blindados
de sabre são forjados em fôrmas de bronze
no horizonte vítreo:rasga(m)duras vertigens
nos revérberos bêbados das vértebras frias



o bêbado

se bebo para embriagar-me ?

é para ter certeza de que o olho esquerdo
não me e(n)ja(c)ula mas me salva do direito
de ser prisioneiro desse fogo que exala



o pianista

- sabemos

a agonia dos ossos
e a dobra das ondas

os irados sentidos
e a sina dos corvos

não poupamos elogios
à loucura dos gênios

nem a nódoa sobre o mundo
nos envolve em mudas sílabas:

- os poetas sabem das palavras
nós sabemos dos poemas...



o bêbado

à embriaguez:

esta divina cotidiana
mente

que nos convida a beber a
tequila da vida



o pianista

sem sombra de dúvidas:
gosto de ver o olho ab
sor
ver
traços suspensos



o poeta

ouvir o cálido nervo no céu calêndula
ver o abutre olho rasgar o osso amêndoa

a trama do verde entre a rede e a varanda
o vurmo do ventre sobre a espuma e a pedra

( primavera de trevas e líricos cristais de ouro-luz )



o pianista

o que se descortina além de gravuras ?



o poeta
são os dias que se vão
e essa noturna armadilha
a irromper densa
(n)a tarde breve e vária:

- dançam as estrelas como se o silêncio
conspirasse improvisos contra a solidão do céu...



o bêbado

serei eu
a face bêbada
que gangrena restos da retina ?

a desdobrar liquefeitos verbos
c(r)avados em díluvios de ouro
onde me revolvem dolorosas larvas
pálidas de rima ?

num relâmpago de fósforo:

a áurea primavera aura...



o poeta

à deriva do horizonte
o crepúsculo cresce
reina e dá de ombros
e não raro acena

- eis a cena:

um rio trans
borda

mil veios róseos

nas rimas da anatomia



...................................................




cena dois (as trevas suspensas )




a dançarina



o rio é o enredo
e o estio é o segredo ?



o poeta

caminhamos ruas
até nós de trevas

e a vida conti
nua pelo prisma dela

nesse lixo cotidiano
que se perfila



o pianista

scarlet: letra escarlate
não como
uma cadela que ladra
mas besouro que escarra
o ouro vítreo da larva...



o poeta

o
ru
mor
do mar
é murmúrio
ébrio sem rumo
derrama-se em rum
nas rochas onde ossos
encilhados tentáculos bor-
bulham avessas armad ilhas

maravilhoso ?

o corpo ilhado sobre o corpo ilhoso
mar de ilhas e irados sopros



a dançarina

melhor do que partir-se
ao meio o ventre
é sorrir por entre os dentes ?!

não suporto sargaços
guizos trevas rubis
vermes vestidos tralhas

só sei os nervos quadris
e as unhas grisalhas



o poeta

a flor cobre o corpo
- crisálida

a onda baila a concha
- cálida

a libélula larva púrpura
- florfalha



o barman

a cigarra é uma estrela
sobre o mármore da pedra
a zombar da farra



a dançarina

não há trama mais sórdida que trans
ponha a aurora da larva que se mesura ?



o poeta

entre o sepulcro
e o lucro de viver
da harpa áurea:

- trânsfuga



a dançarina

a usura da lapidada lâmina ?



o pianista

à duras penas
o amor indômito
sem labor ou encargo
só frêmito ódio e vômito



a dançarina

não há
(a)ventura neste porto
que me resta
a não ser névoa

ao vento úmido hesito
espessa sangro
à sombra das horas

não calo em vão teu gosto: es-
c(r)avo-o em meu rosto



o poeta

no oceano de vidro
navios quebram proas
o vento zomba das frestas

a espuma sob a bruma
como flocos de fios de lã
sobre os flancos das pedras

é o mar macabro da manhã
a beirar o céu das trevas



o pianista

o beijo da alma sabe a solidão



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cena três ( o céu de corvos )




a dançarina



ardem arbustos
no limbo do inferno
sobre pedras-de-jade

um sobe-e-desce
no corpo disperso
de retido hálito enxofre



o pianista

é preciso en-
(vol) ver-se
no abismo
céu de fósforo

ali onde o beira-céu
assedia estrelas

numa ingênua
e púrpura odisséia



o bêbado

ao riscar um fósforo
e ouvir o silêncio
de vime cortado
o olho perscruta
uma voz no (ó)cio

o sol exprime
seu timbre delirante

(n)as curvas unânimes
do arco-íris espumante



a dançarina

à espera de que as (ab)sorvam...



o barman

ah ! mariposas ! famintas por gozos !?



o poeta

não dis
sol
vemos os sent
idos
da lâmina prata
e abissal da pálpebra
do corte mínimo
e noturno alumínio



o pianista

corvos é o que somos
ou engodos ?

o poeta grava na memória
cenários da palavra

versos duros da história
que trilha a alma e lavra

( despidas de concisão fixa e acessória )



a dançarina

ah! o fôlego das metáforas!

- pétalas de papoulas e (ver)rugas avaras -



o bêbado

o olho vazio sabre - o dia vadio engendra



o poeta

ouve o vento:

timbre da tarde
que rói o sol curvo
e noturno uivo

antes que anoi-
teça(m) violáceas
balas de aço

espumas salivas de sangue

- o tempo é exíguo -

sob a árvore
o olho ruivo
do sol fulvo
o tédio nada ir-
rompe

à noite
é um açoite
na estrela carcaça

- o tempo é resíduo -

olho oculto
único
sol intruso

inerte e fixo
posto apodrece turvo

( moluscos devoram crânios )

- o tempo é ambíguo -

cartilagens cartuchos
cristais de carne
o tiro pela culatra ?

mil olhos murchos !!!

abaixo sobre
a têmpora ou o mamilo
ao coração não há fuga
nem exílio

só o retumbo
som da víbora

( sede secreta )

a

(t)
arde né voa

n
um jorro (im) preciso

se es-
vai para fugir
dessa
colheita

o corpo meta-
fora

um sopro (in)di
gesto um tiro a-
teia tarântula penetra
extrema nas frestas
dos nossos ossos

não traço em meu rosto
rasuras
nem teu céu azul ilhado nu

quanto mais a varredura
sorve dos ossos
o espectro líquido

argilosas granadinas
cobrem de salpicos
salmilhados os tijolos

não a-
tinjo o céu de ouro
sem que o brilho
de topázios ditosos
me leve desta tarde in
de(cre)scente

na penumbra
uma ave plúm(b)ea
a íris engrena

um véu grisalho
uma estrela nébula
na tarde anêmona



..............................................



cena quatro ( o purgatório )



o pianista



o céu de isopor
uma orquestra de erupções
de signos onde sóis perseguem
esmeraldos pássaros raros

engendrando seus segredos sem saber
da solidão das cabeleiras grisalhas

o céu paisagem
de espanto istmo universo
onde sóis singram-me o ventre
como um sabre entrecortando

do pulso à virilha a névoa da retina
o amplo céu vasculha a solidão dos sentidos



o poeta

o alvo
seria o olhar
da brasa cotidiana
nessa clausura assombrosa
de acordes rosas

num colosso de ossos
o cheiro da carniça
e a carcaça de (s)o(m)bras

sob o sol odiado
de amarelo mortuário
do céu de odessa
a rufar no crepúsculo
incendiário das estrelas

no rugido da noite
um ranger de dentes
e o convulsivo gozo
da engrenagem

- épica odisséia -

à míngua do musgo
moem o lixo
mandíbulas de metal



a dançarina

rastejo
até esfolarem-me os joelhos
carrego-os coroados de vermelho
nos olhos ponho sal e saio dos versos
dissol
vendo-me em náufragos gozos



o bêbado

escarro um verso
não raro como rimbaud
mas um bêbado à sorte

escravo de mim mesmo
ando curvo como foice
a procura da morte



o pianista

elevo-me censor de duras silhuetas
s(o)uave entre a névoa e a montanha
(ex)traio a palavra estiagem larva lírica
e me infiltro de soslaio no inferno

- não sou louco pelo que digo e singro
por este olhar que me espanta e sinto ?

porque cargas d' água pedras de mármore
são mistérios e memórias são rumores ?

- não sou verme (re)velado pelo espelho
mas alvo que - como um preciso dardo -

o olho mira ( olho que vejo outro )

andarilho



o poeta

ouvir o vento tecer fragmentos breves e borboletras grávidas
a revoarem no sereno (in)destino que lhes vislumbram entrelábios
latejos devorados sentidos numa overdose de silhuetas espumas

basta (es)cravo (n)o esqueleto oco que se estilhaça nas dobras
duras das sobrancelhas que bradam sobre um céu espumado
de velhos corvos onde solspiro mil centelhas nas treliças do tédio

nocivo gozo e sorridente esboço da vida turva - o que é difícil e
inútil - mas que esmigalha e estorva - o que é fácil e fútil - mas
que vasculha e transtorna - em um conciso vício de vulvas

úmidas no fundo do fosso há dúvidas: horizontem noturnos entre
ruídos raros de (a)morcegos e cabele iras (r) uivas de imensos
fôlegos e tremo-te: grãos de cravos nos olhos de ampulheta

nas barbas cintilas guelras de aço da chuva ácida abrindo sulcos
ouroespinho em veludo negro orvalhando álacre nos galhos da es
cassa cereja corpo albatroz ouriçando mariposa de dourado linho

onde ardo grinalgas andarilhas espátulas de lótus como a fruta
podre ou a ma(r)remota medula ferrugem de madeira moura
tombada de ternura núbia nu vens em mim sentir (o)dor de estrelas

anônimas esgarçando-se nos rins do orvalho - sinta o mesmo cor
céu contemplado de medusas luas do istmo mar sangranado
de salamandras estrias intrigas levedadas de filigranas pétalas
de mármore vertem em pedras filiformes meandros de metal



o barman

viva o dia em movimento

o silêncio se vê mínimo

breve oceano de grãos

do poema árido

nadando em ondas de mármore

Um comentário:

  1. Isso é fantástico! Simplesmente fantástico! Vou ler de novo e de novo . Estou entontecida de palavras. abraços

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