sexta-feira, 23 de julho de 2010

reflexão


reflexão




o que suporta
este corpo em silêncio
os olhos que o ilumina ?

o sonho
que cessaria esta pausa
é pura reflexão -

e por hora
em tramas secretas
o coração se amplia

(re)volver
a trilha em vígilia
e esquecer a têmpora

- move-se o silêncio -
 

suspenso o coração
dispara

olhos de argila

olhos de argila


tudo se foi -
tempos dorsos troncos
retorcendo eternos
olhos d'água

teu arpão
farpas de seda
dói-me as espáduas

o retorno
dos tornozelos em fuga
os sabres sobre as rugas
do céu líquido

por trás
dos ombros - os olhos -
ocos de argila

fio da meada


fio da meada



 
súbito
encerro os olhos
soturnos

charco
espesso dentro
deflagro rastros
sulcos

a noite tecia
o mar imerso entre
ondas imensas
ostras

passo
que se apressa
(re)fugindo da insônia
âmbar

esta
a melodia dos fios
que se disfarçam
na meada oblíqua
 da vida

grávido de cólera


grávido de cólera



pássaro
solto pássaro
no céu amplo
ancorado aturde órbitas
grávido de cólera

rasga céus
sob o sólido sol sólido
no inconcluso tédio
da tarde escassa

crocitar é o revérbero
do corvo recurvando-se
sobre a carcaça corvejando
o silêncio cotidiano

o pássaro agora
corruptor de vísceras
pulsa-pensa um odor
de covas movediças

encarcerando a alma encarcerada

domingo, 18 de julho de 2010

hagoromo - o manto de plumas

hagoromo - o manto de plumas


pescador:


vento veloz -
singram barcos ao largo
da baía de miho (1)

pescadores ditam
a rota marítima
das ondas


pescador:

sou hakuryô
pescador do pinheiral de miho (1)

acima dos altos
e belos cimos
nuvens céleres se dissipam

a chuva se esvai
ao clarão da lua
sobre a torre


calma estação
o pinheiral espera
a primavera:

a bruma da aurora
sobre as ondas infindas

a lua paralisa a visão

cena que transborda o coração
do memorável céu

inesquecível ! ao meter-se
nos atalhos dos montes -
a baía de miho

ao paraíso -
juntos iremos juntos
para lá iremos

vemos nuvens ao vento
que se movem similares as ondas
elevando-se do mar

os pescadores retornam
sem pescar ?

um instante ! é primavera !
um vento suave sopra cedo
entre perenes ciprestes

suaves ondas nas manhãs amenas

centenas de barcos

humildes barcos às centenas
com pescadores


hakuryô:

trilho os pinheirais de miho
onde contemplo a baía:
inolvidável

do amplo céu cai
uma chuva de pétalas -

tendões de vidro

percebo suaves sons
e um aroma que se dissipa
em todos os rumos

paro penso e vejo:
um manto formoso
raro e suspenso

aproximo-me
e miro : admiro
sua cor-aroma

ah! manto sublime !
vou colhê-lo e retornar
para mostrá-lo aos antigos

vou convertê-lo
lá em minha casa
em relíquia


tennin:

ouve: esse manto é meu !
por que o levas ?


hakuryô:

esse manto encontrei-o aqui -
por isso carrego-o
embora para casa


tennin:

esse manto de plumas
não pode ser levado pelos homens
é um sopro divino

deixe-o onde encontrou !


hakuryô:

esse manto de plumas
vem do céu ?
seria de algum anjo ?

por ser algo raro
vou preservá-lo e torná-lo
o tesouro do reino


não posso devolver o manto !


tennin:

ah ! que grande aflição !
sem o manto de plumas
meu vôo cessaria !

como retornar aos céus ?
imploro-te: devolva-me
o manto divino !


hakuryô:

tuas súplicas
não me demovem e ouví-lo
mais forças deu-me ainda !

sou hakuryô - o indomável -
e velarei o manto de plumas
não devolverei esse manto

e para casa partirei


tennin:

e agora: sou ave sem asas 
querendo voar não posso
sem o manto divino


hakuryô:

aqui é a terra !
- resida entre os homens -
(n)este mundo ínfimo


tennin:

desolado estou -
não sei o que faço
o que me resta ?


hakuryô:

não lhe restituirei
- apesar do seu ar triste -
o manto de plumas


tennin:

desalento é o que sinto...


coro:

um florvalhar de lágrimas
como pérolas de cristal
caindo pelos cabelos

grinaldas adornadas
por pétalas de lótus
fenecidas

tentáculos de visão:
sobre os olhos do anjo
em declínio (2)


tennin:

se volto aos céus
me envolve
a densa névoa

indistinto o rumo
para as nuvens:
incerto é meu destino


coro:

visão do céu:
alaridos entre nuvens
onde está minha morada

o canto familiar
do karyôbinga (3)

ave-paraíso alado
de doce (en)canto
do karyôbinga

desalento: já nem ouve

aves em escarcéu
vozes sem fim
vão além do céu

que voltam por rumos divinos

andorinhas e gaivotas
sobrevoando o mar alto
num vai-e-vem

um sopro de brisa
à beira-céu
saudades da primavera !?


hakuryô:

contemplar teu rosto triste (4)
me desalenta -
devolvo-te o manto divino


tennin:

um encanto me toma !
como uma bela música
recebê-lo-ei


hakuryô:

espere: ouvi sobre as danças angelicais
- o manto te devolvo -
se dançares

tennin:

ah ! grande alegria !
sem tardar
poderei retornar aos céus 

para exprimir
a imensa alegria que sinto
dançarei uma dança lembrança

para o vosso
divertimento
em torno do palácio-lua (5)

agora dançarei aos homens
em tormento

mas preciso do manto divino
para bailar


hakuryô:

não ! se devolvo-te o manto
voarás aos céus
e jamais dançarás !


tennin:

não há perfídia nos céus
isso é inerente aos homens


hakuryô:

oh ! perdão !
tome o manto divino


tennin:

já vestida com asas de plumas
vai bailando a donzela
a dança arco-íris (6)


hakuryô:

o manto divino
flutua no céu leitoso
ao sopro do vento


tennin:

mangas de pétalas
úmidas pela chuva
miúda e fria


hakuryô:

ao som da melodia !


tennin:

dançando !


coro:

surugamai - a canção do leste (7)
é uma diversão à parte
a dança do sol nascente

neste tempo
o céu limpo foi criado
- semprecéu é seu nome -

doravante tempos remotos
elevaram-se de dois deuses (8)

que deram origem
a dez rumos do universo

neste tempo
o céu limpo foi criado
- céu eterno foi chamado -

o céu : circunscrito
céu perene
foi denominado


tennin:

é eterno enquanto dura
- refeito com pedra-jade -
o palácio-lua


coro:

em mantos brancos
anjos rondam os arcanos do céu
em mantos negros

evoluem em trinta divididos
em dois pares de quinze
(9)

em noturnas luas
donzelas divinas dançam
uma após a outra

tennin:

sou uma donzela divina !


coro:

compartilho
da árvore-lua (10)
paraíso num só tempo

exibo a dança surugamai
ao sol nascente e conduzo
ao mundo esta canção

como pétala voa
dançarina da primavera
da árvore-lua

plana sobre a terra ampla
toda plenitude primaveril
com asas de papel

deslumbra a visão
o diadema de vidro
do beira-céu

é primavera em alaridos -
encantada com a bruma
cigarra sobre a pedra


vejam ! o excelso do céu !
brisas divinas voláteis
soprem a porta das nuvens !

oh ! donzela !
por um instante
voe sobre nós

desde os ciprestes
contemplamos a primavera-cor
do cabo de miho
o luar sobre a baía de kyomi
o eterno fuji envolto -
pela aurora florida

ondas e brisas
serenam a baía na aurora
entre os ciprestes

jamais se separam
céu limpo e terra ampla
- longilíneo horizonte -

nem a lua se veste
neste império nascente
deuses descendentes (11)


tennin:

ao palácio-lua do soberano
por breves instantes sobrevoa
um manto de plumas - divino e raro


coro:

o rochedo de jade perdura
esvoaçam ondulando as plumas -
um toque-de-seda

é inolvidável ouvir
trilhado por melodias suaves
o canto nascente
vozes flautas harpas
levitando além de nacos
de solitárias nuvens 

no rubro olhar do sol ruivo
o monte shumi espelha:
relvas verdes-ondas
oscilantes de ukishima (12)
tempestade de pétalas
varrem o céu


nuvens mangas
do alvo torvelinho
dançam seu esplendor


tennin:

reverência e louvor
ao supremo da lua
sua origem é sua força extrema (13)


coro:

a dança do sol nascente

tennin:

um manto do céu profundo


coro:

um manto arco-íris: primavera

tennin:

cor-aroma
o céu vestido de donzela -
inesquecível !


coro:

à esquerda e à direita
pétalas de lótus ornam
suavemente as mangas

esvoaçam
sinuosas e agitadas -
as mangas dançarinas

baila
o álacre sol nascente
vários bailados 

o anjo - cândido -
como a lua no céu limpo
ao fim da segunda semana (a)tinge:
a lua clara bela e rara

vários tesouros-veneráveis chovem
e ao reino dá o manto
guardado à sete-chaves

o tempo passa
assim como o vento -
o manto de plumas

sobre o pinheiral de miho
nuvens de ukishima sobre
os cumes de ashitaka e do fujiyama (14)

sublimes !
dissolvem-se no céu
do além-céu

sempre esvoaça
imutável no semprecéu
o manto de plumas

a visão se extravia: cálidocosmos


...............................................................

Uma das peças mais famosas do repertório nô, é "Hagoromo -
O Manto de Plumas", que tem uma " transcriação / tradução "
para o português,feita pelo poeta e tradutor Haroldo de Cam-
pos. Ele recebeu de Darci Yasuco Kusano ( especializada em
teatro Nô) um texto bilingue de Hagoromo, uma versão peda-
gógica, preparada juntamente com a professora Elza Taeko
Doi, que consistia em uma tradução, linha a linha de uma
transcriação fônica, uma versão literal na ordem sintática
japonesa, e, uma segunda versão já normativizada, ou seja,
havia uma tradução completa, dos pictogramas e ideogramas
japoneses, para o japonês ocidental,e por sua vez uma tradu-
ção para o português. Foi daí, que Haroldo de Campos partiu
para sua transcriação/tradução de Hagoromo, que por sinal
sinal, ao meu ver, é melhor do que a versão pedagógica das
professoras, pois ele acrescentou a sua poesia à tradução.

hagoromo – o manto de plumas

Hagoromo, o Manto de Plumas pode ser resumido como um
grande haicai ou um poema-peça dançado, que apresenta
dois personagens antagônicos: Hakuryô, um pescador de co-
ração pétreo da Baía de Miho, e Tennin, anjo-donzela budis-
ta que volta à Terra para recuperar Hagoromo, o manto di-
vino sem o qual não poderá retornar ao céu. Após tristes sú-
plicas do anjo agonizante, o intransigente pescador se como-
ve e resolve devolver-lhe o objeto precioso. Mas antes,Ten-
nin deverá lhe conceder uma dança com seu manto celestial.


TEATRO NÔ (NOH)

Nô, Nou ou Noh (Japonês) é uma forma clássica de teatro
profissional japonês,que combina canto, pantomima, músi-
ca e poesia. As atuais companhias de Noh estão localizadas
em Tokyo, Osaka e Kyoto. Interpretado apenas por atores
masculinos, que passam sua arte pela tradição familiar.
É uma das formas mais importantes do drama musical clás-
sico japonês, executado desde o século XIV. Evoluiu de ou-
tras formas teatrais, aristocráticas e populares, incluindo o
Dengaku, Shirabyoshi e Gagaku. Suas raízes podem ser en-
contradas no Nuo - uma forma de teatro da China.

Um de seus mais importantes dramaturgos foi Zeami Moto-
kiyo. Por seu lado, deu origem a outras formas dramáticas
como o Kabuki. O " Noh " é caracterizado pelo seu estilo
lento, de postura ereta, rígida, de movimentos sutis, bem
como pelo uso de máscaras típicas. Possui em Zeami Moto-
kiyo (1363-1443) o codificador maior dessa arte. Com um
repertório de aproximadamente 250 peças, o universo Noh
é habitado por deuses, guerreiros e mulheres enlouqueci-
das, às voltas com os mistérios do espírito.O foco da nar-
rativa se encontra no protagonista (shite),o único que por-
ta uma máscara. Shite é um espírito errante que exprime,
de forma lírica, a nostalgia dos tempos passados. O coad-
juvante (waki), geralmente um monge, não interfere no
curso da ação,apenas é revelador da essência do shite.Um
coro e quatro instrumentos auxiliam na condução da trama,
que se soluciona através da dança. Esse coro,vale destacar,
possui uma função dramática decisiva, conduzindo a narra-
tiva.O " Noh " é a fusão de poesia, teatro, bailado, música
vocal e instrumental e máscaras.Os diversos elementos mu-
sicais são estreitamente entrelaçados numa simbiose entre
o canto e a pantomima. No Noh, a descrição de cada cena
repousa unicamente no texto do canto, nos gestos e nos
movimentos do ator.
........................................................................

HAGOROMO - O MANTO DE PLUMAS / MINHA VERSÃO

Minha versão consiste numa transcriação das duas traduções.
Uma comparação entre uma e outra. A partir daí, recriei
Hagoromo sob a minha visão. Menos complexa que as duas
mencionadas,mas mantendo o mesmo sentido poético. Não
tenho a pretensão de ser melhor nem pior. Apenas estabele-
cer a minha visão de Hagoromo.
........................................................................
Hagoromo - O manto de Plumas, é uma peça do teatro Nô
japonês, escrita por Motokyio Zeami ( 1363-1443 ) trata-se
de uma peça que mais parece um longo poema, o qual foi
comparado a um "HAICAI" amplificado, pois só alguns mo-
mentos são enfocados - os de máxima intensidade - e ape-
nas sugerindo o restante do drama. é uma breve composi-
ção que pode ser vista como uma dança ou um poema dan-
çado ou uma elaborada metáfora dançante. o leitor terá à
sua disposição notas sobre o texto,onde se explica algumas
passagens, para que ele compreenda melhor a peça. boa
leitura.

Notas

1. Pinheiral de Miho: praia ao sul do porto de shimizu (ilha

de hônshu), bordeada por um pinheiral (província de suruga).
do local têm-se uma vista magnífica do monte Fuji;

2. Gosui: cinco estigmas - quando um ser celeste está para
morrer aparecem os sintomas seguintes: flores do seu diade-
ma murcham; suas vestes cobrem-se de poeira; das axilas
brotam o suor; as pálpebras tremem e o cansaço o toma;

3. Karyôbinga: pássaro de canto maravilhoso. pássaro do pa-
raíso budista;

4. Hakuryô: malícia do velho pescador. impõe a ninfa da lua
(anjo-donzela) suas condições, sob pena de reduzí-la ao exí-
lio das terras sombrias, antes de devolver o manto.

5. O budismo considera a lua, domínio do monarca da lua,

que habita um esplêndido palácio,servido por donzelas celes-
tes. aqui denominado de " palácio-lua " ;

6. Dança arco-íris: referência a dança das donzelas celestes;

7. Surugamai: dança da província de suruga ou região leste,
do sol nascente; aqui uso o termo "sol nascente". referên-
cia ao reino ou ao império do japão, como é conhecido até

hoje o país;

8. Dois deuses: nijin - deus izanagi (leia-se izanagui) e a
deusa izanami. pai e mão dos deuses no panteão xintoísta;

9. São 30 anjos. 15 de mantos brancos e 15 de mantos ne-
gros. na lua cheia, concorrem e dançam juntos, todos de
branco;

10. Árvore-lua: katsura - planta lunar. cássia ou cinamomo;

11. Deuses descendentes: referência à deusa amaterasu ô-
mikami, divindade solar, iluminadora do céu do panteão
xintoísta;

12. Oscilantes de ukishima: ilhas balouçantes de ukishima.
ventos oscilantes;

13. Força extrema: daiseishi - grande bodhisattva / terceira
pessoa da trindade búdica - " sei " significa força, energia -
já " shi " quer dizer extrema, excessiva;

14. Ashitaka: monte que segue em altitude, o monte Fuji;

.................................................................

referência bibliográfica: hagoromo de zeami, CAMPOS
Haroldo de (1929 / 2003) - transcriação do original ja-
ponês hagoromo zeami / Editora Estação da Liberdade;

quinta-feira, 8 de julho de 2010

atmosfera âmbar ( o fôlego das metáforas )

atmosfera âmbar
( livro três / o fôlego das metáforas )
em quatro cenas:

- a solidão do céu
- as trevas suspensas
- o céu de corvos
- o purgatório


os personagens
o poeta
o pianista
a dançarina
o bêbado
o barman

.....................................................................................

cena um ( a solidão do céu )

o poeta

curvo-me à sombra de risonhos bocejos en
cravados sob átomos polidos onde vermes
de mim mesmo anoitecem seus fantasmas
náufragos nervosos fios de baba salobra

rigorosos olhos onívoros odores blindados
de sabre são forjados em fôrmas de bronze
no horizonte vítreo:rasga(m)duras vertigens
nos revérberos bêbados das vértebras frias



o bêbado

se bebo para embriagar-me ?

é para ter certeza de que o olho esquerdo
não me e(n)ja(c)ula mas me salva do direito
de ser prisioneiro desse fogo que exala



o pianista

- sabemos

a agonia dos ossos
e a dobra das ondas

os irados sentidos
e a sina dos corvos

não poupamos elogios
à loucura dos gênios

nem a nódoa sobre o mundo
nos envolve em mudas sílabas:

- os poetas sabem das palavras
nós sabemos dos poemas...



o bêbado

à embriaguez:

esta divina cotidiana
mente

que nos convida a beber a
tequila da vida



o pianista

sem sombra de dúvidas:
gosto de ver o olho ab
sor
ver
traços suspensos



o poeta

ouvir o cálido nervo no céu calêndula
ver o abutre olho rasgar o osso amêndoa

a trama do verde entre a rede e a varanda
o vurmo do ventre sobre a espuma e a pedra

( primavera de trevas e líricos cristais de ouro-luz )



o pianista

o que se descortina além de gravuras ?



o poeta
são os dias que se vão
e essa noturna armadilha
a irromper densa
(n)a tarde breve e vária:

- dançam as estrelas como se o silêncio
conspirasse improvisos contra a solidão do céu...



o bêbado

serei eu
a face bêbada
que gangrena restos da retina ?

a desdobrar liquefeitos verbos
c(r)avados em díluvios de ouro
onde me revolvem dolorosas larvas
pálidas de rima ?

num relâmpago de fósforo:

a áurea primavera aura...



o poeta

à deriva do horizonte
o crepúsculo cresce
reina e dá de ombros
e não raro acena

- eis a cena:

um rio trans
borda

mil veios róseos

nas rimas da anatomia



...................................................




cena dois (as trevas suspensas )




a dançarina



o rio é o enredo
e o estio é o segredo ?



o poeta

caminhamos ruas
até nós de trevas

e a vida conti
nua pelo prisma dela

nesse lixo cotidiano
que se perfila



o pianista

scarlet: letra escarlate
não como
uma cadela que ladra
mas besouro que escarra
o ouro vítreo da larva...



o poeta

o
ru
mor
do mar
é murmúrio
ébrio sem rumo
derrama-se em rum
nas rochas onde ossos
encilhados tentáculos bor-
bulham avessas armad ilhas

maravilhoso ?

o corpo ilhado sobre o corpo ilhoso
mar de ilhas e irados sopros



a dançarina

melhor do que partir-se
ao meio o ventre
é sorrir por entre os dentes ?!

não suporto sargaços
guizos trevas rubis
vermes vestidos tralhas

só sei os nervos quadris
e as unhas grisalhas



o poeta

a flor cobre o corpo
- crisálida

a onda baila a concha
- cálida

a libélula larva púrpura
- florfalha



o barman

a cigarra é uma estrela
sobre o mármore da pedra
a zombar da farra



a dançarina

não há trama mais sórdida que trans
ponha a aurora da larva que se mesura ?



o poeta

entre o sepulcro
e o lucro de viver
da harpa áurea:

- trânsfuga



a dançarina

a usura da lapidada lâmina ?



o pianista

à duras penas
o amor indômito
sem labor ou encargo
só frêmito ódio e vômito



a dançarina

não há
(a)ventura neste porto
que me resta
a não ser névoa

ao vento úmido hesito
espessa sangro
à sombra das horas

não calo em vão teu gosto: es-
c(r)avo-o em meu rosto



o poeta

no oceano de vidro
navios quebram proas
o vento zomba das frestas

a espuma sob a bruma
como flocos de fios de lã
sobre os flancos das pedras

é o mar macabro da manhã
a beirar o céu das trevas



o pianista

o beijo da alma sabe a solidão



.....................................................



cena três ( o céu de corvos )




a dançarina



ardem arbustos
no limbo do inferno
sobre pedras-de-jade

um sobe-e-desce
no corpo disperso
de retido hálito enxofre



o pianista

é preciso en-
(vol) ver-se
no abismo
céu de fósforo

ali onde o beira-céu
assedia estrelas

numa ingênua
e púrpura odisséia



o bêbado

ao riscar um fósforo
e ouvir o silêncio
de vime cortado
o olho perscruta
uma voz no (ó)cio

o sol exprime
seu timbre delirante

(n)as curvas unânimes
do arco-íris espumante



a dançarina

à espera de que as (ab)sorvam...



o barman

ah ! mariposas ! famintas por gozos !?



o poeta

não dis
sol
vemos os sent
idos
da lâmina prata
e abissal da pálpebra
do corte mínimo
e noturno alumínio



o pianista

corvos é o que somos
ou engodos ?

o poeta grava na memória
cenários da palavra

versos duros da história
que trilha a alma e lavra

( despidas de concisão fixa e acessória )



a dançarina

ah! o fôlego das metáforas!

- pétalas de papoulas e (ver)rugas avaras -



o bêbado

o olho vazio sabre - o dia vadio engendra



o poeta

ouve o vento:

timbre da tarde
que rói o sol curvo
e noturno uivo

antes que anoi-
teça(m) violáceas
balas de aço

espumas salivas de sangue

- o tempo é exíguo -

sob a árvore
o olho ruivo
do sol fulvo
o tédio nada ir-
rompe

à noite
é um açoite
na estrela carcaça

- o tempo é resíduo -

olho oculto
único
sol intruso

inerte e fixo
posto apodrece turvo

( moluscos devoram crânios )

- o tempo é ambíguo -

cartilagens cartuchos
cristais de carne
o tiro pela culatra ?

mil olhos murchos !!!

abaixo sobre
a têmpora ou o mamilo
ao coração não há fuga
nem exílio

só o retumbo
som da víbora

( sede secreta )

a

(t)
arde né voa

n
um jorro (im) preciso

se es-
vai para fugir
dessa
colheita

o corpo meta-
fora

um sopro (in)di
gesto um tiro a-
teia tarântula penetra
extrema nas frestas
dos nossos ossos

não traço em meu rosto
rasuras
nem teu céu azul ilhado nu

quanto mais a varredura
sorve dos ossos
o espectro líquido

argilosas granadinas
cobrem de salpicos
salmilhados os tijolos

não a-
tinjo o céu de ouro
sem que o brilho
de topázios ditosos
me leve desta tarde in
de(cre)scente

na penumbra
uma ave plúm(b)ea
a íris engrena

um véu grisalho
uma estrela nébula
na tarde anêmona



..............................................



cena quatro ( o purgatório )



o pianista



o céu de isopor
uma orquestra de erupções
de signos onde sóis perseguem
esmeraldos pássaros raros

engendrando seus segredos sem saber
da solidão das cabeleiras grisalhas

o céu paisagem
de espanto istmo universo
onde sóis singram-me o ventre
como um sabre entrecortando

do pulso à virilha a névoa da retina
o amplo céu vasculha a solidão dos sentidos



o poeta

o alvo
seria o olhar
da brasa cotidiana
nessa clausura assombrosa
de acordes rosas

num colosso de ossos
o cheiro da carniça
e a carcaça de (s)o(m)bras

sob o sol odiado
de amarelo mortuário
do céu de odessa
a rufar no crepúsculo
incendiário das estrelas

no rugido da noite
um ranger de dentes
e o convulsivo gozo
da engrenagem

- épica odisséia -

à míngua do musgo
moem o lixo
mandíbulas de metal



a dançarina

rastejo
até esfolarem-me os joelhos
carrego-os coroados de vermelho
nos olhos ponho sal e saio dos versos
dissol
vendo-me em náufragos gozos



o bêbado

escarro um verso
não raro como rimbaud
mas um bêbado à sorte

escravo de mim mesmo
ando curvo como foice
a procura da morte



o pianista

elevo-me censor de duras silhuetas
s(o)uave entre a névoa e a montanha
(ex)traio a palavra estiagem larva lírica
e me infiltro de soslaio no inferno

- não sou louco pelo que digo e singro
por este olhar que me espanta e sinto ?

porque cargas d' água pedras de mármore
são mistérios e memórias são rumores ?

- não sou verme (re)velado pelo espelho
mas alvo que - como um preciso dardo -

o olho mira ( olho que vejo outro )

andarilho



o poeta

ouvir o vento tecer fragmentos breves e borboletras grávidas
a revoarem no sereno (in)destino que lhes vislumbram entrelábios
latejos devorados sentidos numa overdose de silhuetas espumas

basta (es)cravo (n)o esqueleto oco que se estilhaça nas dobras
duras das sobrancelhas que bradam sobre um céu espumado
de velhos corvos onde solspiro mil centelhas nas treliças do tédio

nocivo gozo e sorridente esboço da vida turva - o que é difícil e
inútil - mas que esmigalha e estorva - o que é fácil e fútil - mas
que vasculha e transtorna - em um conciso vício de vulvas

úmidas no fundo do fosso há dúvidas: horizontem noturnos entre
ruídos raros de (a)morcegos e cabele iras (r) uivas de imensos
fôlegos e tremo-te: grãos de cravos nos olhos de ampulheta

nas barbas cintilas guelras de aço da chuva ácida abrindo sulcos
ouroespinho em veludo negro orvalhando álacre nos galhos da es
cassa cereja corpo albatroz ouriçando mariposa de dourado linho

onde ardo grinalgas andarilhas espátulas de lótus como a fruta
podre ou a ma(r)remota medula ferrugem de madeira moura
tombada de ternura núbia nu vens em mim sentir (o)dor de estrelas

anônimas esgarçando-se nos rins do orvalho - sinta o mesmo cor
céu contemplado de medusas luas do istmo mar sangranado
de salamandras estrias intrigas levedadas de filigranas pétalas
de mármore vertem em pedras filiformes meandros de metal



o barman

viva o dia em movimento

o silêncio se vê mínimo

breve oceano de grãos

do poema árido

nadando em ondas de mármore

quarta-feira, 7 de julho de 2010

o silêncio do silício


o silêncio do silício




- há o silêncio:

um nó na garganta
se agiganta só

? por qual poema grito ?

por um ou por todos
que me escravo -

? por qual palavra explico ?

por uma ou por todas
que me explicam -

porque estou escre-
vendo (n)este espelho entre
o olho obsceno e o aceno ?

vejo cenas em meu rosto trêmulo -

( o silêncio entre os dias odiados )

o cio entre as pernas do céu

nu-
vens em mim
sen ti(r) (o)dor

ah ! o silêncio ! qual não lhe perturba ?

o da noite que perdura
o do dia que (en)cla
usura

ou do som do cílio
na selva do sol ouriço ?

o silvo do sino
o insosso escarro da rima roída
do silício ?

cristalino quartzo aturdindo rochas
como o silêncio precioso
- pedra valiosa -
tal o perturbador lírio

" delírios da doce lira que o silêncio assiste "

segunda-feira, 5 de julho de 2010

pétalas de ópio


pétalas de ópio



flor orgias no entrecéu
onde as estrelas
são:  tempo

o tempo é pó
urdido no arco do céu
tendão de vidro

entre pétalas de ópio
os fios dos dias
são: seda

o sal da língua - saliva -

(trans)borda
presságios de trégua

in morocco



in morocco



tendo
ao fundo
os montes atlas
com seu manto blanco
no horizonte eterno ocre
muito antes das desnudas
dunas de menara e quarzazate
- Marrakech: há pátios de berberes
convivendo áridos nômades de sempre
beduínos malabaristas víboras dançarinas
dromedários elos entre passado e presente

como
aquarelas
delacroix um
oásis de terras
amplas saarianas
africanas no esplendor
cosmopolita áureo de Rabat
a cedro e ferro fundido tangendo
Tânger que seduz postada à porta
do gibraltar al-andalus (ou)vê-se pelos
minaretes (c)orações em medinas palacetes

em
punhando
punhais a céu
azul um xador
(en) cobrindo rostos
oh! quantos mil rostos belos
da cidade vermelha de barro
(re)vivem e morrem em Marrocos
seus corpos sob um céu mediterrâneo
mourisco en dia brado de “al mourrakouch”
dos “ sabaâtou rijal “ poesia arábica ritual

de ruas
e ruelas peri
féricas quadricu
ladas de Fez esta já
virada para meca mel
o dia de dantescos sons
marinados em ácido absorvi
(vi) dos por humanos do inferno
assim se fez um labirinto de hortelã
favos de imensos alvéolos sangrentos oléos
de todas cores e cheiros e pecados terrenos

onde
os sent
idos inebriam
gravadas sombras
na memória de los muertos
- “ pour le plaisir des yeux ” -
in sha’Allah um café em Casablanca
de marrom marroquino que morram os in
fiéis tenham fé que a vontade divina se fará
e a vontade ruiva do sol em Rabat azeite óleo
ambarino de um leão indomado aceite de Ceuta

ou
Sevilha
de águas
do guadalquivir
de cobre eu construo
um claustro de menta
em teu rosto atormentado
de dueña entre tâmaras videiras
infestadas de fiestas de aguardente
poesia amêndoa de oliveiras salivas
de bocaberta a fulva alberca do alcázar

um
café em
Casablanca in
Morocco onde moro
e resíduo estanco o livro
e resido e revivo e redecifro
um vinho petrificado e frívolo
sobre o mármore doceano atlântico
refechando o livro roendo figo-do-diabo
num dromedário de pêlos albinos no deserto
sobre o asfalto de negro intenso perdido sigo

o signo
branco me
empororoco in
Morocco implorando
teus poros estes sopros
de esgotos esfiando-me gotas
de café em Casablanca borra de café
não tenho fé morrerei de ira de pó-de-lira
da poeira da poesia da azia da má digestão
não não morrerei pela boca nem fisgado pelo pé
nem pelo coração só penso morrer no mar de agadir

dá no
mesmo e
me dá arrepio
feito uma lâmina
sem fio sem língua
sem fábula sem nádegas
outra vez minha casa branca
de telhado gris alho lombrigas
consigo mesma lesma sem mandíbula
sem retrato contemplo o tempo contém o pó
do tempo tenho pó nos olhos no soalho do templo

já faz
tempo pintei
com tinta têmpera
tuas têmporas escrevi
um poemeu poe metendo-te
em teus meios sem perder o per
dor de tempo amei teus seios ventre
virilhas nádegas brancas coxas deixei-te
roxa nas ancas tão bela de tranças dormindo
furiosa mente úmida na manhã âmbar de Melilha

num bar
de rua onde
sento e bebo
teus sonhos meus
sonhos nossos sonhos
ardidos na garganta e não
lembromélias nem ofélias do
cheiro de urina vaso de porcelana
só me recordo da cama macia da tua
pele no cio do tempo em que estivemos
em silêncio camaleoa ferrugindo milgemidos

ébrios
entrentáculos
de búzios nossa
línguastuta é canibal
e feroz neste ato contemplo
um complô de algastristes nos olhos
soçobrados pelas frinchas da fenestra
a luz irradia resinas e devasso-te do avesso
som de sossego sou cego e cessa tua voz
de morcego teu chamego chamacesa de deusa
grega sou teu vassalo e rego-te escassa selvagem

que
o denso
orvalho gan
grena teu suss
urro travesso de ursa
o tempo se acaba na porta
que se abracadabra cabra da peste
o tempo investe em teu corpo um tussor
de seda persa e fecha refecha infesta em
suas ancas e suas meias de Casablanca sonhos

medos
solidários
sóis diários
consolidáriosóis
com sorte suas entre
meias não serão rasgadas
com minhas unhas uma a uma
em meio a bronha diária do átrio
solitários sorrisos vertem de tua boca
arcaicabarrouca arcabouça arca de louça
galega ouça tua língua extremadura leiga

ossos
o gongo
primeiro round
era uma vez era
o segundo fluxo refluxo
doloroso gozo zonzo de gás
ozônio e lixo arsênico sabor luxo
da pêra áspera de raia-lixa limando
a língua rija e removida bactriângulosa
de veias onde há poesia extravasa palavras
explodindo como guernica sangrada de mil metais

e bru
mas elev
ando-me sobre
o corpo podre de
caos e delírio a barra
bravia arrebata o vento
vindo do revolto mar de Almeria
onde sereias servem-se de mil redes
vazias de solidão e trago dentro de mim
a dor de não ter sal amargo na boca de lábios
rachados onde a concha bate nos inacabados

molhes
esverdeados
são teus olhos
marinados são meus
olhos avermelhados são
teus seios atormentados são
meus sonhos amarelados são
nossos céus de sonhos onde ventos
há muito assolam a terra ampla dome
o medo diário este dromedário de pedra
que lhe há dentro um café em Alhambra

com
os meus
dedos medo
nhos entre suas
dobras de língua
dura através e salta
sobre a virilha e se abre
e se desdobra e se descobre
faminta de saliva onde penetras
vértebras de seda em fendas de um
odor oloroso de sal o ventre com unhas
de vidro gangrena teus segredos em narinas

suicidas
teus becos
sem saídas o pavor
dos pulsos dos sulcos
dos olhos dos sonhos são
os mesmos passos de simesmo
este demônio sentido insano mais sol
itário que exaustos astros-lábios sobre
insaciáveisseios que se abrem róseos es cor
rendo óleo enquanto dormes a dor me seda a dor
mecem os dedos roçam os seixos roem os dentes

os abutres
comem tecidos
sob um orvalho embru
tecido do silêncio e tudo
não passa de engano de um
engasgo que suporto um amargo
sonho diário onde somos nossossonhos
e somamos os medosonhos e só amamos
somente nós e seremos rasos e parcos nessa
areia vazia de arco-íris de barcos cisnes negros

ossos
flor orgias
ardiam à beira
d’água salgada longes
rios e lagos de saudade de ti
de tua terra de quem era uma
vez era uma vez era uma vez era
uma megera a insônia onde os cílios
não se abrem a concha se fecha em névoa
sopro de prosa uma sopa de rosas uma glosa
de ostras soletrando solemio o sol é meu o sol

é teu
o sol en-
trando pelas
fendas das furnas
e é meu o sol ondeando
em plumas de bruma e acor
damos num sonho de meio-dia
aos trancos solavancos afagos vários
entre tuas ranhuras minhas intrigas seremos
mandíbulas de nós mesmos pálidos dissolvidos
num dilúvio de lama de mar de porcelana de corpos
de salamandra de lã de salamargo de Salamanca de sal

noigandre



noigandre

( a haroldo de campos / já nos veremos pela via láctea )




vejo uma negra felina olhos de gude
sobre o colo do poeta - o noigandre -
cujo óculos e sob este duas pérolas
pupilas pretas saltitando diretas
de um dantesco poema alma vólucre
- arco-íris de crisântemos arcanos

vejo a tarde leprosa de abutres
sobre a noite horizonte de tenebras
tecer versos raros de nuvens névoas
e um tremor turvo de álacres estrelas
no labirinto céu cinza árido
- de alabastro escuro e sólido

vejo imerso em palivros diversos
repousado sobre mantos de esplumas
de rosto hirsuto e esfumacentas
pálpebras brotar nas frinchas esculpidas
da súbita e desvairada linguaviagem
- suscitar sua última arvoraZEN

vejo o sol ruivo em fulgor furtivo
acordar salamandras de incêndios
e o barroco odisseu douradornado
flertar com uma líbelula de feltro
de garras felinosas em seu casulo
- onde copas dançarinas oram rumores

a península



a península 



um navio
ancorado à deriva

a península peixe pássaro

um rato raia
cordas ossos
conchas ostras

(r)onda de estrelas

este balanço ululante
de cigarras vagabundas
no céu quase espuma

restos de inferno
tridentes no céu da boca

sobre a ponte de treliça
como uma trêmula
estátua trêfega

- estrila

o bailarino - tentativa de homenagear paulo leminski


o bailarino ( tentativa de homenagear paulo leminski




santa feliz
cidade
" curitiba "
onde subiu aos céus
ou melhor evap-
orou-se
em uni
versos
trilhos tropi(hai)cais
um bailarino polonês

( ai de mim pobre de carne e osso )

teu verso dançarino
salta o poço
em noite de lua
cheia de lume

som de estrela

( tal como a rã
num salto efêmero
estrias n'água )

rastro flamejante
bola de fogo
silhueta ave rara
a mirar sem (i)limites
a controversa alma
no fundo do espelho

rebela o infinito
o íntimo intui

revela o improviso
o inédito flui

o inferno vermelho
um caos ver(de) amar(o)elo
o azul imóvel do escar-
céu negro

( escaravelho )

não há superfície
nem mar da tranquilidade
que (re)pouse tua (s)o(m)bra

- bem sabemos

esses olhos absolutos
de son(h)o e poesia
aventuras e metáforas
expostas aos cataventos
naus e etecétaras

( uma rede ainda balança sua alma dentro )

o sol
se (im)põe

o céu
te (a)guarda
as flores do mal

" rimbaudelaire "

(en)
ca(n)ta(tau)ram-se
com sua
farf-
al(h)ice

lê-
(em)
mim
sky

pau-brasil:

acabou a farra
já dizia sua poesia
áurea e anil

- até onde irão seus versos ???

" ir não sei
só sei a (l)ira
da tua língua
a mascar uma cigarra nissei "

"mal" armado
letra esguia
transforma-se
em estrela guia

lâmpada geniosa
sua vida lá a vi
em close
nessa estrada graciosa

polêmico paulo poleminski
teu céu acadêmico
é nosso braseiro

teu poema mímico
é mais que brasileiro
tens fôlego de baleia -

quando se lê
sua dor nu(m)a
folha alva mais alma
do que carne calva

sem ba(r)ba e fios de ovos
essas letras " esses "
símbolos de nossa solidão
e bossa nova

" so
li
dão (b)ecos sem (sa)ídas "

só alguém que sabe
sai de seus medos

e cego e surdo e mudo
é aquele que não lhe percebe
mais que do que tudo

pois é paulo poeta
sua poesia de paus
e copas é(s) toda
concreta...

a invenção ( tradução do poema "a criación" de xavier seoane / língua galega )

“ a criación ” - ( a tradução - língua galega )

de xavier seoane


a criación
é un rapto que nasce
como exceso da dozura
estremecedora do ser

sol
que arde subitamente
como asovio ou semente
na nudez traspasada do silêncio

a criación é
un rio caudaloso que entra
a obrar secretamente
por unha porta entreaberta
que só as aves coñecen

o seu véu traspasado
semella un vento leve
as suas pegadas moles
un rumor delicado de donzela

a criación
é unha presenza misteriosa
que xeme cando o fruto non se orla
levemente de mel
ou a canción solar non leveda
a ancha terra

a criación é o canto
feliz do ar e da terra
a comuñon da morte e o nascimento
a alegria instintiva do universo
- para ser

.......................................................

A INVENÇÃO ( A reCRIAÇÃO )



a invenção
é um enlevo que germina
como resto do tremor
dulcíssimo da criatura

súbito
o sol fulvo arde
em silvo ou sêmen
no desnudo silêncio violado

a invenção
é um rio corrente que deságua
a criar arcanos
por frinchas entreabertas
que só as aves sabem

seu véu revelado
alastra um vento de seda
seus rastros tenros
um rumor tênue de donzela

a invenção
é um mistério que uiva
quando o fruto não se orla
suavemente de mel
ou o som solar não excita
o solo amplo

a invenção é o (en)canto
ditoso do céu e da terra
o álacre impulso do âmago
a união da luz e da treva
- paraíso

( cálidocosmo )

os trigênios

os trigênios




o silên-

cio do céu:

esta poesia cardíaca
pintura hidráulica
de borboletras esmeraldas
tal como campos casulos

seus sentidos selvagens
de anéis de puro ouro
em dedos diamantizados
e carcomilantes brincos

imantados de hímen-
sidão que um dia
ronaldo " o azeredo "
e oswaldo " o cícero "
reverbeirizaram:

um à paulicéia o outro ao desterro

( letras de fundo e forma )

" de súbito a alma escama
o álamo em desfolho
acalma e ilhama
o olho do gorgulho "

olho que se assombra
de um alumínio irisante
até que a sombra sobre
a terra da lua minguante
eclipse metamormágico
translúcido fásico
de galáxias lácteas
uma palavra alumbra:
esta que se trans (in)
(re)forma
ao ver-se
(des)entrevada
em polidas páginas
pigmentadas de pimenta
cuja boca mal agüenta
o ungüento da palavra malagueta:

- o gueto ?!?

como um sáfari
em " afreecas " selvas
não à procura de marfim
nem de trombantes
elefantoches

mas de safiras pre-
ciosas pedras
feitas de pó e ira
que se faz poeira
e se empedra

essa poesia
que em sua cósmica órbita
a palavra fósforo rara
se a(s)cende e alumia
sobre uma folha solta
onde trigênios mosqueteiros
trituram a palavra jamais morta

( esta escrava que não se exaura )

são triângulos fosforejos
num jogo de (guar)dados
goles d'águas gargarejos
gaita de fole gargalos

com a língua já sem fôlego
(re)tocando os mamilos
e o espesso grelo
entre grilofantes dedos
que estrilam trêmulos

( feito rômulo e remo

filhos de réia
num cesto de vime
à ribeira do tibre
adotados pela loba
com unhas de tigre )

rasgando dissoltos
in(can)descentes galanteios
de vulcões la(r)vas correntes
de sílabas que uma outra
pedramorta sibila

- milgargalhadas florfosfluorescentes -

pois é poesia
inaturada desce do céu
enviada sabe-se lá por quem

divas deuses demônios ???

talvez um outro
traço de centauro à margem
da malandragem dos sentidos

( crepúsculo de ostras )

poesia pássara pêssega
suave cigarra que se assigna
veludolorosa e se fragmonstra:
univértebra univalve unívoca
o equívoco é " el cielo "
no horizonte de " heraldo "

- o enrelvado e belo:

um
de
créscimo
cio
psignatari

onde jaz em sua brilhante
biop(oe)sia ad augustum:

*** " onde estou ? - em alguma parte - (1)
parte entre a fêmea e a arte... "

o uni (co) verso



(1) passagem do poema "ad augusta per angusta " de augusto de campos

sábado, 3 de julho de 2010

a pedra e a perda


a pedra e a perda 



percebo
sonhos da tarde arderem
segredos aos flancos:

- unhando-se -

entre nácar e néctar
concedo-te ambos
a alma em riste
as mãos encardidas
em carne viva
expulsando a pedra escarlate
esta perda mútua da vida

vestígios do horizonte:
o mármore do teu rosto
esfria

aqui o poeta
pelos charcos das ruelas
agora sobe em cortejo os céus
entretecido pelo fogaréu
da ínsula alma

- sonhas -

e o poeta sonha:

em qual labirinto
as pálpebras em teia
pressinto ?

quinta-feira, 1 de julho de 2010

escarcéunario


escarcéunario




1.

escravo flamejantes palavras bêbadas
sobre teu esboço reclinado
contorno de rios calabouços
calafrios calaboca ossobuco de gor
dura cavernosa pelos cabelos
de duralegoria suspensa e dispersa
boca babilônica do eu
fraterno tigris
peste bubônica dentro de ti
um alvo suscita uma fábula
como nabucodonosor sonhou-a
um cheiro de dorso
entre ouroperdida sob um céu brumoso
e rajadas de rubis
esferas encarcerando esferas
um sorriso de donzela

de bronze entornando
um rio caudalodoso
de turva tinta turmalina
de algodão âmbar
cor cadáver lapidada
em copas dançarinas
que oram uma vida de rumores
nas últimas lâminas de cálcio
invadindo ingênuas o silêncio d'água
infesta
uma deusa dorme em ti uma medusa
me usa
ruídos noturnos de um rio de risos
um cadáverminoso no âmbito
do cadáverminado
casulo saído do nirvana do ervanário
sob engolfadadas iluminosas

lufadas do girassol embrutecido
girando sol esgarçando-se amarelo
de remela tramando à terra lama
encristado encrispado encravado
pelo anzolazul metálico
metamorfásico metafórico que me treme
te mete medo de hálito apodrecido
de vinagreste ferrugemendo
de hemorragia(s) atormentando
juncos na escuridão mais profunda
(j)untada de escarpas de alcaparras
de escamas alcalinas
de algasozas alfazemas
de algazarras mais garridas
de amargas margaridas

das idas das garras de rapina
agarrando as carnes da véspera
da veludosa nêspera
da pêra irosa vespa da estrela vésper
do alvorvalhado da estrela d'alva
cadáverguido do caixão de carvalho
de inacabados sulcos em combates
entre nabos e abacates
de embates sem bates
de mascates de máscara pálida
partida de " un cadavre "
esquartejado em quatro partes
do " paradiso petrificado "
pára com isso colidir
um colibrí contra o vidro
curvo e blanco do oco olho
branco do ocaso contra

2.

o último tremor de morte
da línguagridoce
o silêncio do céu cintila
uma corrente de metal
lâminávida línguáspera viva
uivândalosonhos
tecidos no silêncio ocioso
diantespelho da noitespessa
o sanguestendido
um arco-íri(s)desce do escarcéunário
imenso ensimesmado riodiário
entre o denso frio
de almas entristecidas
de gemidos quebrados
onde lábioseios submersos
na nódoa amêndoa do mundo
da medula que acidula
o ácido de similar seiva o mar

salivas espumas saboróseas líricas
este perfil narciso
dentre postiço desvario
de vapor parvo
solstício de verão o inverno
onde acarí
cio o orifício dentrifício
são ossos do ofício
o negócio do ócio o oco do fósforo
a desforra da salamandra
o ar voraz de sandra
da razão envolver a árvore vertical
onde vou ver o mar
o vôo do albatroz
revolver o mármore suave do martírio
rever o amor
abalar a ave
tingir de vermelho a alma
o revólver atingir

a dor ir
revogável do duro ofício diário
o orifício do caralho
expelir a voragem no orvalho
a cor do carvalho
a cor da desaceleração
a coragem coração
o sabor da amargura
a levedura o langor
a armadilha a tortura
a tártara ruga
da tartaruga
a rusga entre a armadura
e a pedramole tanto embate
até que fode
e marche e desfolhe
e ore e descolore e descobre
a desoladora e vísceral arma
a empunhadura do punhal en
cravando a unha na espinha dorsal
(f)agulha

a aurora se mistura ao calibre da ferida
salferida de salmoura
a brisa de salamanca
a brasa da sombra
da cambraia da samambaia
a raia do arraial a arraia na praia
na memória a oratória da história
da palavra da vida
pálpebra entris
tecida deslumbrada e estremecida
a descida o sentido do absinto
o labirinto do abismo
o suicídio o estio o silêncio
tenro estarrecido
do cio o sorriso mentido
por inteiro o silvo
a sílaba o símbolo o bolo
o sim do digno o sibilo do sino

o esplendor estéril do espelho
o delírio do esteio
da dor do desvario o rio
uma rua me invade-me
ao fundo de frinchas vadias de chumbo
engendrando corpos
de finissímo vidro
incendiado de instantes
onde de imediato medito
o dia ferrugem
a desfigurar o hiato
o fulgor ferruginoso da queimadura
uma ingênua figura enfeitiça
a trágica alma tênue nua
ao longo de grandes sonhos hostis
teciam-me aos pedaços
pesadelos entre dedos amarelos

entre o sono
e o som da noite escassa
a caça: o ventilador em meu rosto
o vento sirocco
disposto sem norte
deixando-me louco
onde in
morocco meio maluco
um mameluco
num camelo eunuco
nunca havia visto o saara
onde a vista mais bela
eu avisto sara na janela
desta forma a areia na ampulheta
saindo pus dentre dentes
os olhos esbugalhados a punheta
sonhando com madonna marilynmonroe
charlize teron and sharon stone
a palavra pedra rolando não tem
sentido

3.

não tem sentido negativo
uma " nêga chamada tereza "
também não tem sentido positivo
tem princípio ativo
no desaterro do flamengo
teu chamego
me chame de teu nêgo
seu cabelo bombril
cor de brasil
tens perfil de mulata
batendo lata em retirada
uma bala de fuzil
na descida na entrada do morro
o tiro pela cu
latra cachorro que ladra
que grita pega ladrão
um suspiro no peito
foi preso o último suspeito
pelo tremor do morro

na finisterra escarlate
como se marte
fosse o temor da morte
não tem sentido não tem sentado
não tem estado
só tem sem-teto
só tem sem-terra estatelado
em estado de confusão
tem contudo cento e onze carandirus
corumbiara vidigal chico mendes
nova brasília favela da naval
quadragésima segunda dp 1989
sp eldorado dos carajás
roraima das madeiras
dos ianomânis a deus dará
rodovia pa-150 bras
ilha eldorado dos marajás
dos violados viadutos
violetas violência baionetas
borboletras

uma bronha
coloca uma fronha
na cara da raimunda
de raivosa e imunda bunda
está sor-
rindo o bussunda
por entre nacos de nu
vens do céu moribundo
" àquele abraço " de aço
31 de março aquarela do brasil
" aquela brasa mora "
ali do meu sol
ado esquerdo
chupando a amora
da namorada chupando
melado-de-cana
rechupando boceta prá caralho
dando na cama prá chuchu
nos lençóis dos teus cabelos encara-
colados um a um
nos caracóis da cachoeira
de itapemirim

parati para mim para-mirim
que me vou prá tramandaí
oh tremendão
e daí que a pa-
lavra me tece me retece me remete
etecétaras e tais
me derrete na mão
o chá das dezessete desinto-
xica da silva adeus à chica
a porcelana xícara
uma porção cara me excita
um bacanal me recita
um som de cítara no carnaval
uma batalha em guadalcanal
street uma doca estrita
mente leia-se leila diniz
um disse que me disse
tu me dá dez que te dou vinte

prá escrever uma " renga em new york "
que é maior do que a morte
só há vida após a morte
mas eu não creio nisso não
nem receio disso não
eu anseio teu seio na mão
malvada minha cara mal lavada
cheia de tesão eu te toco
touch me
em tocantins
caprichosamente boi garantido
em parintins
a palma da minha mão
no sertão do jalapão que o diabo amas
sou assim mesmo ensimesmado
lá onde o diabo
perdeu as sete botas do gato
eu vi um gato
resmiando à espreita
um rato atrás da porta

vê se te endireita
vira à esquerda na es
quina da mesa eu te como
sobre a mesa debaixo dela
sentada na cadeira
sem eira nem beira
à river
side do rio de janeiro
o teu passado da portela
oh! jardineira
que passa um slide do sambódromo
um drama sambado da mangueira
do morro do salgueiro
eu mo(r)ro na ex-barra da tijuca
ventania ao corcovado da urca
ao arco da lapa
que nhaca essa vida que não é vida
que não é vida é replayground
da minha vida é só uma ida...


4.
sem volta pra lugar nenhum
só revolta o ventila
dor do teto em meu rosto
que desgosto passou
um trem das onze passou
um rio em minha vida
de janeiro à agosto
do mar vermelho a finisterra do fogo
onde a américa inicia e termina
meu so(h)no no meu soho
na tribeca são quatro horas da madruga
e minhas rugas estão acordadas
enquanto minha mulher
de olhos bem fechados so
sonha aguardando o dia amanhecer
o sol tecer fios dourados de ovos
à beira do riacho

dentre flores e espinhos
dentre narcisos tulipas lírios
no céu flutua uma pipa
no chão rasteja um rio de formigas
minhas amigas cigarras de aço
esvoaçam perdidas
sobre a pedra da ponte caída
encontro-me no fim-do-mundo
onde tudo não é nada
onde nado sem saber o momento breve
onde minto
onde o bonde do bode é uma ode
e não fode com minha cabeça
do meu pau de pele rosada
e não pode o dia perolizado se confundir
não pode o dia confoder com tudo
e com todos

com a noite senão
dá madrugada da manhã
e aí o universo se anuncia à poesia
a poesia não adia não arrepia
o pássaro não pia
nem seus quadris rodopiam
cobrindo os peitos pelos (en)cantos
de ushuaia
não suporto o frio
vindo do sul do norte da antártida
enregelando os sulinos montes
os sulinos campos
as sulinas cidades
as andinas montanhas
a restinga do albardão dos albatrozes
de algodão branco
como branco do branco
dos teus olhos

dos teus sueteres
teus seres das tuas serestas
das arestas das sestas das sextas-feiras
da novela das sete dos setecéteras das eras
das heras que te cobrem os teus muros
os teus seios brancos de bicos duros
e oleosos róseos e dourados
que chupo e rechupo
e reduzo a champanhe
como com champingnon
e inhame e pinhão da terra
trufas negras com trutas grelhadas
na manteiga negra com alcaparras
e violeta parra
sorvendo tequila com absinto
e dolce de uvaia e limão

eu li na tua mão as tuas linhas
da solidão tu com o corpo arqueado
de quatro querendo que eu entre
querendo e querendo
que eu reentre novamente
na tua mente derr
amando doce-de-leite
e copos-de-leite e mais leite
e se deleite e se dê leite
e se deite líquido branco viscoso
que coso leite-de-côco
cor de gelo que grelo gostoso
entre meus dedos
lodosos te enfio e te teço
um terço uma ave maria um padrenosso
meu deus do céu
minha santíssima virgem

te sinto diabólica e bucólica
sem cólica sem coca sem cola
sem cajuína sem marijuana
minha joana minha maria
sorria e me arranha me estranha
me mata me ata a ti a teu corpo
a tua cor a teu pó
a teus pés me chama de zé
e só e nada mais
em bariloche en una
noche mui caliente mui abajo de zero
il fredo che me entranha nos ossos
nos olhos nos sonos
nos sonhos nos soalhos en nosotros
os alhos porós nos poros
no pó na retina

na retilínea
na retícula curva do teu corpo
a curva del cerro e me encerro
na chuva na uva do vinho tinto
não minto prá ti nem um minuto nem por um
instante nem peço socorro
nem corro só para onde vamos
eu não sei só sei que corro e corro
e correndo vamos para onde
el diablo quer
quisera o dia em que
eu entediado fizera do sonho odiado
um fio de poesia
tensão e energia minha guia
minha gula minha (f)agulha
que enfio goela abaixo até o coração
explodir pelos poros...

5.
o olmo
contratudo contratodos
contra homo
plata contra o homoplástico prata
ao contrá
rio do homem côncavo
osso em arco escavando
todas as cousas na escuridão
cadáverminosa curva que escorre
turva que é cor ruiva e raivosa uiva
que viva vibra brumosa acorda
escor
pião-rosa embriagado de chuva
bagas de uva cheirosa
um odor de salgueiro à ribeira do riacho
que com a dor da salmoura
em nacos de pele escarlate
t
ardia a sólidalma

levantando vôos
em leves ares
em antares em anta gorda
em antonina em antananarivo
em antofagasta
antanho anteontem
estorvalhar a retidão do esplendor
e ardor penetrando
bordas da escuridão
como um cadáver vivo
vendo-se imenso calcário
rio aéreo como concha oclusa
no mar da solidão
cor rompendo a dor adornada de ouro
orando em matadouros
pelas carnes pela c(l)aridade
dos entreodiados dias murmur
ando alternantes sussurros
entre o céu e o inferno

entre o horror do pecador
e a tortura do salvador
para onde só se sobe de elevador
numa velocidade póstuma
nem mínima nem máxima
porque a máxima é:
" elevar-se dentro de si para ser "
num papel almaço
desenho um albatroz
no alcândor de alabastro
para alçar a alma além-mar
à alfama do alcáçar
onde alfanges e algemas
prendem-me alhures

onde a luz se faz solar
e evapora serena
seda foice só ou faca
a sede sabor de sangue
entrever entrevas o mar
por onde ondas virilhas
formam e ruínas domam
caramujos marujos medusas
em tuas conchas sereias
raias nas areias cast
elos castos caranguejos
náufragos búzios gr
ávidos peixes de tédio
dejetos de gestos desejo(s)
asas tenras de morcego negro
este amor
cego que nego que carrego e cedo
aturdindo deuses e rochas
antes tarde do que dante
em incêndios medita errâneos
meus dias de inferno
na terracéu de ninguém
como se algo tão fósforo

à espreita a serpente mordendo
o sol num sobres salto a corda
entre o dia marginal e a tarde centelha
no(s) olho(s) do papel um tornado
outro branco
na têmpora o caralho dentro
contra o medo destempero
o centro endro coentro sal alho
decerto o vento elabora outro (in)vento
de silen ciosas salamandras not
urnas derrubam
elefantes negros da parede
a fruta cristal de mármore
um caçador de vampiras
e o pássaro eunuco
espermas do céu de chumbo...

6.

são mil cavalos de forças suicídas
em teus ouvidos uivando
como se o crescente vento crescente
fosse (n)a escuridão cadente
de uma estrela cadente
irradiando o sabre
relâmpago sabe o corte cálidoscópico
e inconcluso haraquirinsano
de tentáculos que se abrem
em lábios gomos revérberos
aerados de membranas

hímen-
soldáveis à deriva
soçobrados navios
entre albatrozes de asas ninfas
brindando demônios verdugos
ébrios noturnos fígados
enterrando seus vivos
onde ardem na tarde
incendiária de abutres
os céus do sol solitário insólito
de hienas e vômitos
onde vespas espalham
bolhas e violetas e bordados
esmaltes de lótus
sugando o iceberg do mar
esse fragmonstro marinho
vertendo algas em polvo-
rosas pássaros náuseas
chuva de anchovas
sobre os ombros da sombra
um fio de sol medita

enquanto casulos soluçam
bocejos de tédio
o corpo vibra aspirando
o fôlegozoso do fogo
entre vértebras e detritos
trema(s): elas se abutrecem
telas de estrelas além-terra
entretê-las trêmulas
enterrá-las sob as telhas retê-las
e tremam em trilhas
de tarântulas nas entrelinhas
estrelinhas estrilam
este brilho estribilho de trégua

exalando a dor que labirinto
algo dão tecido de linho
sobre o dorso do teu corpo
pensa o pulso pulsa
o hálito ferrugem
entre lábios veludolorosos
que absinto e absorvo
larvas de intrigas
e flagro o sopro
sabor dos poros
que explodo e exploro
do saborácido musgo rosso
te devoro
o alvoroço do coração
logrado e disperso
litário absorto entremeados
delírios um rumor suss
urro(s)

como os passos elaborados
das dobras do dromedário
o medo diário dorme
o dia árido em
vocábulos de libélulas
e fábulas e luas
rasuras sus pensas sais de rosas
(r)uivas essa dor concisa
no ciso convulsivo da vulva
salivas tua uva agora uvaia dançarina
e se resume:

- em candelábios de argila

às trevas cimitarras sarracenas
e garras tigrinas
cítaras metáforas
essa atmosferambarina
a lâmina cibilina o imã gina:
o sublime sonho sinuoso do trovador
o canto em fragmentos da cigarra noturna
e um cortejo de corvos
da alma carcaça
esse atol de mariposas albinas
na relva veludosas
onde escravo
inflames palavrorazes
sobre essascigarras
ferozas de incessantes
asas translucidadas de cambraias

dançarinas silábias
que transformosam bordéis
em suas alcoovas
de incadelabrosos menestréis
sob a cor calciana do céu
caudalíricoroso
açulam anáguas
re(des)cobrindo salam-
ancas de nuvens
névoas dos meus risonhos
entrediados crepuscu
lunardos
da chuvaia enveredada
de campostais

trigonomestrias
do esculdorante escarcéu
estreliçado espantalha-se
com o encobriçado pelostrino
sossobrio dezimbro no lustro
que abutrece o sacr
ofício de seu tresvôo
sombrero doceano
um bater-de-asas
na imensa exaustidão imensa
do cinzentostado tédio
do diabucólico
desse dracão rosácido
de víviboras que murmurram
pelas entrelvas
entre velustrosos destrossos
imensorvendo devassalaservas
entre o risolutodiário verão douradornado
de tesouropó
e o infernomenal invermelho
de fibras mórulas...

7.

céus
de montes longes
estrelados belos
em vôorvalhos de fagulhas
num espetalar de dissolvidro sol
em contínuas emolduragens zen
untado de óleopardo mais zanzibar
do que amarelosóis da rubria-terra
em ostras palávridas nascentelhadas
no desorientenebroso horizontem
das orelhas do ventre-livro:

drupáceas flabeladas de incrustáceos
caducifólios bilobados sobre mimmesmo - 

                   unha velida volvoreta               (1)
en canto un rascaceo
en anacos calaveras
esculcam tebras

transborboletras frinchadas
corcircundam odores melíferos
de purpurina onde salivorescorrem
pelas guelras das siloitas
páginalvas soltas (f)rugindo
como mercenárias hienas
de cielosflamejantes
até silvanas áfriicas
de vísceralmas semiclaras
ao pátrio armado:

a obscuras vive el vértigo sin párpados
y en el cielo unánime brotan súbitos pájaros

imparênteses entristecidas teses
de gingerlinas glabras
estes tristes traços
entre a incerteza
do ser tão de teresina
e o " teseu de trezena " -
testemurro-a sobre(a)mesa de amora !?
gergelimacídea ?! aroma de romã ?!
" uma rã estria n'água respingo de lágrimas "
- arremesso a palavra pedra
como se fosse o começo
e não meço a (in)conseqüência
da queda que revela
ao vento vendo-se movendo
onde escrivo palavrouras intrigadas
de trigores heliantos ocultos paradisos

quem no fulgor do poente corrói
o brilhoso sol tombado
no instantespesso da florvalhada
mais suave ?

- relâmpagos de silhuetas -

singradura de estrebelhas em tramas
às margens está
tua face de mármore
e sei os duros cedros entre fôlegoles
de cidra e dentres de mar gim
embriagando os teus esfolhos envidrados
olhos brigando entre si -

chega de trama chega de drama
aconchegaqui teu corpo um copo d’água
o teu corpo de áquila no aconcágua
um condor enregelado a lado
regendo o andes quer
onde
tu andes seja em meu corpo
ou na senda de silvos satirídeos
em rochamuscadas de rascaceos
como suavessas rapinas
de utopázions entreabrindo
insinuantes málpedras
esquivando-se do olhar
do espelho sobre
este mar de tenebras

8.

vou me ver domado
dormido corroído
doído de cor roída cor
das indas e vindas da idade
da cidade da cicatriz
da cicatricidade
da eletricidade da elegância da iguana
da eleganância
da gana da ânsia
de ler um jornal
fazer um jogral
ver um grenal
achar o santo graal
e ter e reter e tomar em terezina
todo o éter e pro
meter a mão em teus meios
onde semeio o sêmen em teus seios
o gosto de menta
a semente somente
e tente outra vez
abrir a página dez
abrir a vagina
com teus medos
teus dez dedos
tua sodoma a minha gomorra
na tua cara
nossa masmorra
e não morra agora
nossa senhora
e não corra no saara
porque o solmovediço sol
sobre a areia movediça
é uma treliça de madeira
sereia se queres
mamadeira
eu quero leite de côco
eu quero teu leitoso
oco
quero teu leito formoso
te dou um soco
e só ouço a louça quebrar
e requebrar e quedar
e chedar o queijo o remelejo
teu beijo de ameixa me ajeita
meu remelexo em teu jeito
o teu seixo em teu sexo rolado
em teu solado em meu sol
amargo o salamargo em salamanca
as tuas ancas não largo
eu te afago em wells fargo
no largo de lagos
nos descobrimentos de algarve
mediterrâneo descubro teu rosto
cobre cor-de-mel
ainda hoje vou-me
embora para pasárgada
a passos largos levando
tua boca esgarçada
tuda boca engasgada
teus pássaros de bora-bora
vão passar mel com manteiga no pão
do japão do jalapão de pimenta jalapeña
tabasco e jamaica maria da penha
no país basco sinto o teu asco
ascolta questa parola
stesso peccato posto al fuoco
o foco é o osso exposto
deposto de si mesmo
depositado desossado desfiado
não vendo fiado
só vendo para crer
o fio da meada o fio maravilha
a ilha do timor
onde o tremor da morte
o temor segue a leste a sueste
ao farwest ao everest
este que fica a oito mil léguas
e tantos metros acima do mar
altro punto lontano lungo de lago di cuomo
onde teu cu eu como
dando tiro pela culatra
pelatrina cuando ladra pelas crinas
cadela de candelabros
de carnudos lábios
cornutto de cor marfim
ao mare alla fine del mondo
onde a onda
omelete de fios de ovos
e baba salobra
no café da manhã
o oba-oba do bicho da goiaba
o sal o salário a salada
lado a lado orleados de alface
em tua face em aljazur do algarve
ao faro
sinto-te o bafo na nuca
cabelos belos de elos
sinos e signos vão bater
na catedral o teu destino de dédalo
que desejo o ensejo e não enxergo
não enxugo tuas lágrimas
as nádegas e nada
esta tua pele este teu texto aveludado
de branca de neve
na estrada onde se deve parar
pára tudo
o paralelepípedo saiu do lugar
teus parapeitos páraraios
saíram do lugar
que o partam ao meio
saíram do lugar
são espartanas tuas tetas
espartanas estas dádivas dos deuses
setas que tantos dardos já fincaram
e te acetaram e lhe cercaram
e secaram com toalhas
com olhos de papel
de tom pastel o teu mel
sou teu menestrel minha estrela
meu pulsar meu quasar meu pó
minha estrela-do-mar
meu pé de laranja-lima
meu limão meu limoeiro
meu pé de jaca-randá
me lima os calcanhares
minha galáxia de antares
minha axila minha asfixia
minha estrela guia
minha esfiha anfitriã
energia estrela anã
não estou em annan
vietnã saigon
zona de bananas de diamantes
de arrozais de rosas ruivas
mas sim na conchichina
na zona de aflitos
de conflitos de confetes e serpentinas
como jogar nos aflitos do recife
do capiberibe tico-tico bolo de fubá
farinha de milho de milhões e milhas
que percorro atrás de alibabá
e os quarenta ladrões
corro atrás da babá
da minha vizinha
que me visita dia sim e dia também
amém meu deus do céu
minha virgem santa minha nossa senhora
meu pai nosso que estais no céu
que coisa essa mulher de colher de pau
na mão comendo mamão feito bezerro mamão
dando berro de desespero
não erro porque quero-quero
bem-te-vi pela janela
saracura sabiá o que fazia
corruíra minha dor e não espero
por nada não
só quero o que é meu
e só
curvas calientes
em madrid de san isidro
onde gabriel e mel
viveram e sobreviveram
às margens do manzanares
de belos ares
"alcalá de henares"
- "al marit" fonte de água -
depois majerit por fim madrid
reino de castela cidadela de el pardo
onde ardo ao sol do meio dia
do cerro de los ángeles
a guadarrama
que se esparrama pelo chão
quando nasce o sol da manhã
e lá gabriel e mel viveram
felizes para sempre
ou quase

(1) língua galega