quarta-feira, 30 de junho de 2010

urna

urna 



tu
amor

que corrói-me
a língua sem saber do sabor
da vida

destrói-me 
irrompendo nervos e inflama
como raízes e ramos

de uma árvore seca em cãibra
estendendo seus tentáculos estranhos
deixando-me à míngua

- cancro de minhas entranhas que me domina -

tu
a(r)
dor

sempre presente
desconforta-me
em teias e arcanos a tua ronda

pressente e brota abrupta
e cresce serena à sombra
rubra podre e bruta

- cancro de minhas entranhas que me domina -

tu
amor

que rompe-me
o tempo severo ostra ávida
ferida

à véspera curva da língua
corpo ácido que sangra
como pedra áspera intriga
a lágrima pura e precisa

- cancro de minhas entranhas que me domina -

sob
um relógio

tedioso e suculento
os ossos dormem nos umbr
ais do temp(l)o
à espera desesperada
das horas que me consomem

o que contemplo agora ?

um poeta embriagado
que se extermina
pelas pálpebras
pelo ventre
pela língua !

- cancro de minhas entranhas que me domina -

na urna
onde minha vida
será revolvida
estará em breve sopro - escrito:
- o meu grito -

aqui jaz um sonho
intensamente vivido
que se perdeu nos vãos do tempo 

métodos


métodos 



cantar alto no asfalto
as aves e as libélulas
nos perseguem

 diferenciamos: aves e libélulas

sigo meus métodos
e sangro o dorso
- não canto nada -
ela canta e cantava
como avelibélula
voava
mais nada

o dragão


o dragão  



o coração:

músculo que habita
à esquerda

- palpável penetrável pisoteável -

púrpuro dragão vascular
de vertentes veias ventrículas

sus
penso

pingente de fibras

por vezes estorvo
onde sangram vasos
e fragmentos complexos

eis-me irrigador
de mim mesmo

cardíaco tambor
de ritmos dissoltos
espamos e gestos

não há uma só
treva tênue
quando o âmago
transcende o jardim
do poento inferno

( não é pelo f(r)io da navalha
a cortar artérias que o ventre
jorrará à insolência da faca ?? ) 

(ag)ora
(d)es
perto:

avesso
o coração não cala
denso
pulsa
(per)
verso(s)

florfúria


florfúria 



concreto é o cimento
que sinto-me 
cobrir
rir
ir
mentir
refletir
flertar
flechar
cimentar
introduzir
intrometer
in
intronitrointronitrointronitronitrointro
inri
rinoceronte sinistro
iridesce
a íris
no horizonte
cobre
é a cor branca
ancas e nacos
de cores (des)cobrindo 
o sol petrificado
o céu
a imensidão
diária
que ab
sinto-me 
dolorido
imagino:
medos
alaridos
imagem concreta discreta  “ in creta ”
a explosão no horizonte
“ le bateau ivre “
uma gaivota livre 
a miragem via viagem 
via a ira de uma gata
selvagem 
vive sete
(cé) taras
revividas 
etéreas
irreais ir
ais
no cio do céu
flor orgias
garoas fogaréus
alegorias...

a fábula libélula

a fábula libélula

o que procuras ?

solitude ?

(l)ou
cura para sua dor ?

estrídulos ?

eu ? suador de salamandras
como tu - gazela de pupilas movediças -

sorvo-te visceral
flor-foguete
sorvete de cristal

pétala de absinto-
me
deslouco desnudando-a

nacos de fôlego
e suss
urros de ursa
leop
ardo

sobre estas rugas
cálido de cinabre
parto-te em dunas

( gengivas lábiosdelta perversa )

vestida de tussor de seda
e nastro de feltro persa
sob um pálio edul-
corado
de luz in festa
de hálito nardo de uvaia

urânia vulva de língua lésbia
no céu concreto da furna fulva

- a fábula libélula

paraíso e caos


paraíso e caos



entre o lôdo e o incenso
- seychelles -

de seischeirosos seiosrosas
d'água
no índigo doceano 

e indignado
a nado - até a morte -
nado até madagáscar
antananarivo
onde chego vivo

queria bagdá
não a atual
mas aquela quase
sobre
babilônia ( babil ou babilu )
 " porta de deus " - paraíso
para os babilônicos 
" babel " - caos
para os hebreus 

- sonhos meus - 

queria - shangri-la -
shambhalla
tibetano paraíso
flor de lótus do himalaia
queria um café em casablanca
in morocco onde resíduo

eu queria tanto
e no entanto nada tenho
entre o lôdo e o incenso
um dantesco rocheldorado

“ en potosí de silente cielo
plateado soríe su signo “ 

entre o lôdo e o incenso
de candelabros