quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

arquiteto


arquiteto

(ag)ora
o cenário do céu
sem céu e que – as estrelas sabem –
o crepúsculo urra no tédio

eu – arquiteto de cárceres
da memória do cinzazul
desnudo
do que fui
além distante

uma e outra
palavra se esvazia

no grito dos olhos
já fúnebres
urdindo a poesia

minha voz
já amarga (n)os tentáculos
do tempo e as pedras
que me consomem

este poeta
de ecos desva
irados
(ex)pira e (ex)trai
(d)as rochas duras
(d)o seu caminho
polindo as unhas

há rugas no papel
entretecido onde a poesia

sorvendo labirintos de granito
explora todo sibilar
do seu enigma

a pedra se faz poema

e verte poesia
do próprio ventre
bruta não - quase-paraíso -

mas fragmentos
sobre a língua
vestida de fantasmas
e viagens num gueto âmbar
sem saída

eu – arquiteto de cárceres
da memória do cinzazul
desnudo do que fui

além distante

sevilla [ dança da tragédia ]


sevilla  -   [ dança da tragédia ]


I.

surge
rindo entre
labirintos de mármore
como a jóia rara lapidada
o excesso de beleza ou feiúra
feito touro miúra em plena arena

II.

o silêncio
vigora aqui e agora
no azul sagrado dos céus
a platéia amplitude modulada
de olhos rútilos intermitentes cala
a morte vestida de morte na espada

III.

este lugar
onde o sangue
se esvai pelas narinas
de amplo salão de pó explora
a plena luz orienta-se ao sol dos dias
e o touro negro de aspas afiadas não cessa

IV.

eu vi a língua
do mais profundo jorrar
da garganta pétrea o líquido
viscoso caliente azulavermelhado
coagular os silentes olhares dos milhares
no contracéu da perpétua ante-sala dantesca

V.

no horizonte
flores soltas ao léu
entre lenços e chapéus
sorrisos e palmas (ab)surdas
seiva a escorrer por entre a poeira
e sob a máscara do homem sobre o dragão

VI.

diante de cada
um se retorce a fera
que recusa-se e faz-se diamante
negro em seu furor causa desespero
na multidão a qual se comparte em dor
e deslinda a (l)ira que medra a cena ao ar-livre

VII.

a tragédia
em gestos derradeiros
o desafio a fio tecido no peito
agora a chuva resta em meus ombros
a morte ao sol latejando até o último instante
gira no ar a carcaça e cumprem as pálpebras o destino

círculos

círculos



a
cor
dei
às estrelas
na paisagem do rio
que está na memória
espessa

a vida
que se vive
diária mente
como um cio
fuindo rente
e ir até aflorar
ao ex
tremo
sobre o mármore
mais tenro
e é difícil saber
entre as árvores
da lama exposta: quem será que amei ?

- (d)os sonhos (in)versos ?
- (d)as so(m)bras (in)vernais ?

este rio se esvai
triste em sangria
do ventre
(d)a pedra contígua
(d)o corte onde o rio
se espalha ao mar
espelho de si mesmo
onde
a
dor
meço

terça-feira, 16 de novembro de 2010

onde queres


onde queres


onde queres
dormir devorando
sonhos de vidro quando
deixo-vos um não de treva
acorda em náuseas escamas
entre corredores de poeira

ao vê-la - a treva -
penetras na pleura da alma
esta armadura amarga
flutuando escuras águas
que não se dissolvem

aqui desenterras dádivas
e vomita o derradeiro ópio
num cálice de argila

surge volátil pelas margens
num gesto brônzeo espesso
o rumor cerrado dos teus pulsos

- lírio vítreo de pálpebra póstuma de ternura -

converto-te em névoa
teu vôo perolado
neste mar de trevas
onde meditas
um céu umbráculo
áureo soturno santuário
circulado de amarelo

lustro fausto de flauta
entre o belo e tua estátua

- soçobram tuas melenas no papel

tua imagem


tua imagem


o olhar promissor
transcendeu o verso mudo
a imagem saindo da fotografia
em preto e branco assim como a vida
virou olhos de jade duas pérolas preciosas
querendo partir-me para sempre de si mesma
ao meio o ventre este que te carrega a(té) o fim

tremo : trema não temas ferrugens entre os olhos fios fendas

são espelhos abrindo os gestos em ti tão
reveladores ancorada sobre o pulso
escorrendo entre os dedos e ardem
numa diáspora de dor onde ao avesso
sem medo beijavas o vento teus cabelos
pulsando suspiros a boca pulsando
sem trégua do olhar pulsando
cuja imagem preciso pulsar
o corpo o olhar a boca

poema para malu


poema para malu

eu não te (re)defino
a poesia - eu sinto -

e não sinto azia
nem má digestão
quando absorvo
um poema

já o signo das palavras
me interessa
não me interessa
é o curso delas

sonhar a imaginação
imaginar os sonhos
sorrisos tristonhos !?

saiba: sonhamos o que somos
e somos nossos sonhos

ser tão triste ou não ser - eis a questão :

(d)esc
re
ver à alma

este é o curso
e o signo que te acalma ?

siga o coração nem tanto a razão
muito menos a ins-
piração

( so
mente (e) sonhos )

lembra:

o olho descortina
a retina

a boca destina
à cortina

sua cor

sei de cor teu nome
malu

- e te(me)mos “ algos “ em comum:

teu signo é meu signo
teu curso é meu curso
teu nome é meu nome

teu nome do meio
é o feminino do meu

tu és do norte
eu sou do sul

- tu me norteia eu te dou luz -

" qual tez de eros
imantada de desejos
são teus versos a me envolver ? "

teu nome
tem mar tem lua
tem arco-íris que insinua

(re)corte este poema
e me (a)guarde

( mesmo que não te agrade )

teu perfil não mente:

- teu coração sente -

método da alma


método da alma   *** (1)



a alma
esta que eleva
a poesia da queda

a alma de layara
é assim
não exaura

- é lázara -

uma promessa
que num piscar
de olhos e (sor)risos
exala

seu nome
tem número e som

- é vítreo -

explico: um olhar de diamante -

( uma estrela de vidro um brilho no semblante )

e diamante
vem das gerais
das minas dos vitrais

um verso diamantino
perfeito mira o espelho
esta mineira
e se vê guerreira

- ela de pouso alegre eu de porto alegre -

nossos portos bem sabemos
de nossas aldeias
toda esta alegria

- lázara “ layara “ papandrea -

da alma lavada na lama na poeira
desta pangea

que escreve a palavra
e faz dela sua escrava
na bateia

e se eleva:

“ elevar-se dentro de si para ser “

- promessa -



*** (1)  poema para Layara. Lázara Papandrea. de perturbadora poesia. 

qualquer cor


qualquer cor



um colar
cuja cor não percebo
mas pode ser
pelo brilho
bem cedo:

- qualquer cor -

o rosto

viva
(se) esconde
como deuses

de demônios

- uma diva -

se meu divã falasse

diria:

- nua fotografia -

o queixo
sobre o ombro
em silêncio desnudo

um sorriso um sonho
profundo

um belo sibilo
na amplidão
diária

- sorria -

cheiro de uvaia

na solidão
e tudo se amplia

devaneios

barreiras vícios
um grito só no coração

- são ossos do ofício -

diria em meu divã -
por tudo isso
sou fã

sábado, 16 de outubro de 2010

vôo sonhado


vôo sonhado



da calçada de pedra cal
alça vôo a caça cauda lírica

- carcaça em arco estral -

náufraga de escarpas cerradas

é couraça
de cristal
que trinca na tarde
entremeada às traças

o branco do céu
em mantra nesta cortina
densa de (r)astros ergue-se
uma correnteza de tramas

nos meandros da sombra
vertem fragrâncias de frascos
do ventre à vértebra
inerte que afronta

(re)pousa
ao revérbero dos olhos
onde rochas tremem
em trevas
sentidos secretos dos poros

- de espáduas amplas -


que bradas ?
se recusa no crepúsculo tecer
traços (ex)traídos da palavra ?

- o hálito -

em pó sem asas
cumpre o hábito
ato pró-
digo - de quase estorvo -
estuar o último vôo
ao troar do corvo
tão só

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

pêndulo



pêndulo




o corpo se adorna:

cortiça citrina medula
liquefeito em gozosas virilhas
de vênulas púrpuras


mas vi
lótus em delírios
em pó pelas pupilas
onde a paisagem se trans-
figura em cílios
de semicerrados olhos
sob preci(o)sas sílabas


o corpo:


insinua e enclausura
ao ponto de soçobrar
açuladas liras
em incêndios uníssonos
nesta noite de texturas 

contemplação


contemplação


uma sede de absintos
jamais ingerida
combustão em silêncio
e de espanto – o albatroz que se agoniza:

habita em algas

ainda que longe e à deriva
no labirinto mais pro-
fundo de si mesmo
em retitude
palinuro de vôos fulminantes
que em firulas altas ou rasas

- contumaz -

e para espanto
a seus olhos se perfaz

plangente controverso – corpo inteiro -
aos dias vêm se recolher
puríssimo

vôo infinito


vôo infinito


ah ! poeta !
porque brincas
com um disparo na testa

se nas frinchas
do silêncio se infiltra
um vento farpado ?

não é por acaso
que o céu registra
versos sem prazo

que ornam o hálito
de estrelas súbitas
ao inimigo tácito ?

mar vermelho


mar vermelho




abro os olhos

alvo roço
a língua áspera
ínsula alegoria
a altear a pálpebra
nesta elegia

inútil partir
o lacre desta colheita
abrupta à alma em carne viva !?

- a morte me sepulta -

o sonho é tédio
sonho o duro fardo
deste sonho ébrio
sem rédea

a lágrima amarga
se desnuda na pálpebra
se a pedra
[ que não seja regra ]
um mar vermelho
sem fio não (es)cava

o último diálogo


o último diálogo




Artriste:

brilha o olho do corvo
em vigília como o sol turvo


suicida-te póstuma poesia
silente na encosta bravia


onde meu corpo se atreve
entre teu corpo que emerge



Melancolia:

oh ! cúmplice dos incensos
de perfumes raros aos ventos


teu cotidiano não tem (a)preço ?


Artriste:

sou eu partindo-me ao meio
sou eu esvaindo-me entre

possuído e contemplando tremes


Melancolia:

pronuncio teu nome possessivo
onde não silencias e te resignas



Artriste:

rendo-me:

não temo a solidão tão perto
tão longe e tão concreta -

isto não me desespera


Melancolia:

leva-me sem temer palavras ásperas ?


Artriste:

levo-te dentro por inteira sem rumo
seiva que sentia o que te sinto
em meus sonhos em lascas e sumos



Melancolia:

há outra estrela em tuas mãos -
brilha mais que a minha ?
e o meu sonho tecido nas tensões ?


imploro-te: leva-me como troféu
porque me parti em dúvidas aos céus



Artriste:

não há no orvalho estrela alguma
que arquitetas senão si mesma na penumbra


o destino é algo infinito
e infinito sou contínuo e maldito


tênue te encontrarei em teus (en)cantos
em meus poemas-sombras e em prantos



Melancolia:

descobriremos juntos esta solidão
até que a retina se feche em silêncio

e reste a dor íntima precisa ou não


Artriste:

intenso o poema perdido –
vago nesse mar onde o mar não é
náufrago - mas raso e de vidro -


qual espelho onde espero vivo
alvo desta armadilha da rotina
já sem pulso e sem ruído ?



Melancolia:

que sou – aquilo que insinuas
a golpes nos flancos e carinhos de unhas ?



Artriste:

não – não posso ser o olhar do corvo
que me vigia e corta e brilha
mas suporto até o fim o fogo
de tudo que me persegue e domina

céu de bétulas


céu de bétulas



basta ! o castigo de todas as trevas !
os (im)pulsos do tic-tac em doses certas
ouvindo ruídos por entre as vértebras

tardo e tudo já é passado a limpo
entre temporais salpicados de bétulas
um acorde de soluços de nervos eu sinto

despertar a ampulheta do silêncio
entre os dias de vestígios dentro
ávido do avesso onde persiste o incenso

atravessando-me poros em nódulos
finda a noite sem saber-te se engendro
o vidro ósseo dos olhos póstumos

dilacerando denso o dorso do tronco
este sopro tombado de rubra seiva
de veios em veias nas vasilhas do corpo

são rasas as palavras dentro em mim
invadindo-me dementes pelas ventas
de meus escombros ditando sem fim

o ritmo constelado do eterno descanso
que escasso aspiro o ar frio e estremeço
devorados suspiros severos e insanos
 

escarcéunário - o último sonho

escarcéunário - o último sonho

1.


ando sobre meus ombros meus assombros
meus escombros
meus sonhos meus risonhos 
medito dissolvidos sóis e sou o que não sou

o que sou e não sou o que sou e o que sou
querem e não quero o que são quero-quero

2.


só eu sei os medos os desejos os latejos
os segredos dos meus segredos dos teus
dos (n)ossos segredos todos que nunca ob-
tivemos todos os nós que ataram-me
nesse frágil cenário de um céu sem céu algum
nenhum escarcéu nem unzinho só céuzinho

3.


quisera o tempo des(a)fiar esta dor indolor
sem cor sem sangre e ainda resta a dor
diária da fratura (ex)posta um rumor
do que somos e somos os nossos sonhos
somos os medos os medossonhos os insossos sonos
insones o que somos o que sonhamos somos
- somos o que somos o que somos -

o quê ? o quê ? o quê ? o quê ? o quê ?

4.

eis-me confessor
de mim mesmo das vértebras
que bradam às pressas escrevendo teu nome
no silêncio do cio do céu do escarcéu onde tudo é
raso e se derr(ama) em salivas nas unhas nas garras
nos olhos salferidos de sorrisos da medusa
não sei por qual momento me calo se meu calo
dói ou se doeu ou se me dôo todo por inteiro
sobretudo sobre a poesia sobre a teoria sobre
a alegria sobre a sangria sobre a alergia sobre
a letargia que sinto sobre tudo e sobre todos
sobre nós

5.

das palavras que (es)cravo que me atrevo
a te dizer o que
traço o que trago dentro
de mim que me afogo em planos sem fundo
e forma tremeluzindo nesta noite como vaga-
lume eu te daria uma luz um sorriso mas nem tudo
que quero será devorado o que sou pelas minhas
veias pelas minhas teias e por todos e por tudo
(m)ais que posso dar eu não sei se posso dar

6.

pelas alegorias da palma da minha mão
onde caminhos suspensos me levam a nada
quem em sonhos ou desejos me levam
a algum lugar que não absurdo ?
- hay sangre em mi palabras -
fiz brotar rotas em mares que me encantam
em sonhos que minha ira descansa agreste
estou deixando rastros em pensamentos
me vou

7.

agora me atrevo com esta línguagridoce
com vontade contínua tecendo versos de vidro
insinuo o passo a passo a passo e passo a língua
em teu rosto áspero encardido de sol de vento
de frio uma lâmina lisa e fina o fio que pressinto
envolvendo-me em sonhos e nuevos sueños
que restam e só o que me resta neste

a
b
i
s
m
o

neste istmo
é este poema
este pó
este
est
es
e
em cada lacuna que me fere em cada boca
que me insere de veneno de beijos de dentes
de degredos me visto de espantalho espanto-as
rugas do meu corpo e toda a emoção que sinto
que sonho que sou que soubera ser sonhando

o crepúsculo


o crepúsculo




os dias suspensos
em tempor-
ais de vidro
que a distância arde

é a crista do crepúsculo
nas entrelinhas
no calendário
da tarde

- estreito é o tempo -

à deriva se des-
cortina
cabendo o vazio
dentro

a palavra insone vaza
- invisível e sólida -
de solidão embriagada

em pó e irados
- olhos desventrados -
estão meus poros

é preciso ouvir
o silêncio dos ossos
que está por
vir

os medos
entorpecidos
vestidos de cor
agem

- vivos e indecisos -

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

lâmina de vidro


lâmina de vidro



nós
que vivemos solitários
em gravuras indigestas

tudo o que fazemos
não é findo nem começo
somos parte desta f(r)esta

não há tempo para temer
para caber em tanta dor
tudo é tanto é ter ou não ter !

ah ! (ar)dor !
por que me nutres
a carne deste corpo
- um não de porcelana -
no alforge deste couro ?

um sonho
em vão se esvai
do que jamais se (ob)teve

entre o pudor e o fardo
o sentido rumor do brado
o medo que temos da dor
nos rasga em cicatrizes

em dobro cavemos 
para escrevermos com falanges
o que não existe e inflama
lâmina que (des)cortina como alfange
(a)o fundo da vasilha que se derrama

somos rapinas de nós mesmos
neste silêncio extremo e imenso
nós que vivemos covardes
nas ranhuras de todas as tardes

paraíso - um sopro de véspera


paraíso - um sopro de véspera



onde suspenso
o sonho após o sonho do canto
agora adversa e indigesta
à véspera de um dia de espanto

és a gárgula
de afogadas falésias
entre o fôlego e o fósforo riscado
de vigorosos sonhos delírios

invasores
roubam-lhe a chama
em combustão - de líquido viscoso -
varrendo-lhe centelhas de relâmpagos

- solitária ninfa entre fantasmas e anjos fulvos -

já se põe
o sol em teus meandros
entremeado aos rios esculpidos
em rochas inquisidoras e aturdidas

de todas as mãos
que tocam os cabelos
no fundo das correntes e te sobem
com os dentes rangendo até os pêlos

em latejo
tens (n)as virilhas
entreabertas em brasa e saliva
a língua sobre o templo que cintila

- solitária ninfa entre fantasmas e anjos fulvos -

vislumbras
o paraíso num inferno
e noutro e mais outro - explodes -
em ruínas e escamas ao desespero

exclamas
e recordas dos delírios
embora o labirinto que te devora
não lhe permita noites de fascínios

diante de mim
já adormeces sonhos
e os invasores do teu (en)canto
se arrastam em intrigas:

- solitária ninfa entre fantasmas e anjos fulvos -

agora sonhas sedas
os olhos onívoros
em polvorosa brisas

reflexões


reflexões






1.

há minas
em mim em explosões
desventrando-me e cem
ou mais reflexões

2.

fizeram-me
pensar nas horas
e tantas do pulsar
de meu corpo de forma inédita
neste céu vítreo onde desen-
cavo espessos fantasmas espessos

3.

agora
mesmo agora
estou aqui sem padre
nem madre numa fria
nesta manhã em que me meti

4.

um cancro
me revolve

há tempos tenho pó dentro
de mim não tenho dó e não sei

onde isso tudo vai parar
como se parar fosse o caminho
e morrer fosse outro caminho

5.

entre
o paraíso e o inferno
não consigo sair dessa
nem com reza nem com ajuda
de judas deuses demônios
e do gato de botas

6.

estou aqui
ancorado lado a lado
num relance de dados
estalando dedos iodados
onde ando sorvendo tua ira
contra tudo e contra mim
e contra todos que te arremessam
pedras nesse lixo cru abismo

7.

assim
como eu acenava
com a vida por um fio
ouvias os surdos nadas
ardendo pelas bordas inteiras
as texturas das armadilhas

8.

à procura
da véspera
lascas de carnes
expuseram-me teus ossos
em trapos e tudo que posso
no fosso (a)fundo traço
planos vários em retr
atos

9.

estou farto
desta línguaviva
solta e distante
que nos envolve
de saliva a vulva
que me mastiga
que te castiga
as fendas tecidas

10.

estou farto
desta poesia sem azia
sem língua e má digestão
que se perde anárquica
abortiva sem combustão
mas viva a(l)tiva incerta
(am)arrotada

11.

não quero
o poema áspero e frio
sem riso rangendo
dentes conciso ao avesso
quero o poema esvaindo-se
(s)em demônios em silêncios
soltos e suicidas

12.

- quero o poema mudo -

sábado, 18 de setembro de 2010

pálpebras em teia


pálpebras em teia 



vou escrever um poema
sobre qualquer coisa: inédito

o poeta
jamais carrega a palavra
ao ritmo das coisas insanas

é o poeta insano
aqui e agora que converge
tudo e a todos aos instantes
e verga a alma que o aflige

de pulsos sulcos saltos
que busca em pulos distantes

- insólito

tão somente
onde o poema se faz memória
embriagado tece o veludo da palavra
como se lavra a trêfega terra

ausente de si mesmo e de tudo
e de todos que o cercam
que o amam em segredo

o poeta assim como o homem
cavalga imutável o tempo
e não sabe o medo

vou examinar o poema:

sair dele como se sai
pela porta após fechá-la

- devorado e inevitável -

esta palavra que me é tardia
como a febre prévia anoitece
em queda a alma vadia

há a nostalgia do possível
esse (des)caminho desesperado
mas também há a perda
do que jamais existiu

o poeta e o homem
no desenlace da palavra
e do poema solo

só e em silêncio se retira
sem o inédito e o insólito
muito menos o poema logo

despedida


despedida 



este é o poeta tramando seu poema
aqui e agora ao vivo à todos escreve
iniciando pelo que ainda vale a pena
o humor negro do dia que se atreve

uma fresta entre a porta e a parede
uma fenestra entre a faca e a sede

é o poeta indo para sempre embora
fechando para sempre a sua porta
mesmo que lhe peçam até a aurora
sua poesia fluiria completamente torta

para ficar neste recinto
vai dizer-lhes:
 oh ! eu sinto !

já se vai o poeta a passos largos
talvez nunca mais volte ou volte !?
sua revolta é a revolta dos fracos
onde (re)vive sua vida de pouca sorte

sonhos sinuosos sem destino
neste incensário de sol a pino

lá se foi o poeta com seus horrores
por aqui deixou - quem sabe - amor(es)
e sobre os espessos ombros da sombra
jamais retornará ao cenário de sua obra

vai o poeta na agonia mais profunda
onde um fio de sol medita em sua urna

tempo tempo tempo


tempo tempo tempo



- tempo -

não tenho o encanto
extraviado e imutável ao léu
nem o mantra do momento


habitar é preciso (n)essa solidão ?

o sol lodoso reverte o teu olhar
sobre o meu olhar já dissolvido

- tempo -

não quero o quebranto
extasiado e imóvel no céu
nem o canto do isolamento


navegar é conciso nessa amplidão ?

o cio ocioso e inerte do teu olhar
sobre o meu olhar já convertido


- tempo -

não sonho o lamento
extenso e intolerável troféu
nem minto meu argumento


remirar é indiviso nessa colisão ?

o frio odioso e solerte do teu olhar
sobre o meu olhar já amortecido

sexta-feira, 23 de julho de 2010

reflexão


reflexão




o que suporta
este corpo em silêncio
os olhos que o ilumina ?

o sonho
que cessaria esta pausa
é pura reflexão -

e por hora
em tramas secretas
o coração se amplia

(re)volver
a trilha em vígilia
e esquecer a têmpora

- move-se o silêncio -
 

suspenso o coração
dispara

olhos de argila

olhos de argila


tudo se foi -
tempos dorsos troncos
retorcendo eternos
olhos d'água

teu arpão
farpas de seda
dói-me as espáduas

o retorno
dos tornozelos em fuga
os sabres sobre as rugas
do céu líquido

por trás
dos ombros - os olhos -
ocos de argila

fio da meada


fio da meada



 
súbito
encerro os olhos
soturnos

charco
espesso dentro
deflagro rastros
sulcos

a noite tecia
o mar imerso entre
ondas imensas
ostras

passo
que se apressa
(re)fugindo da insônia
âmbar

esta
a melodia dos fios
que se disfarçam
na meada oblíqua
 da vida

grávido de cólera


grávido de cólera



pássaro
solto pássaro
no céu amplo
ancorado aturde órbitas
grávido de cólera

rasga céus
sob o sólido sol sólido
no inconcluso tédio
da tarde escassa

crocitar é o revérbero
do corvo recurvando-se
sobre a carcaça corvejando
o silêncio cotidiano

o pássaro agora
corruptor de vísceras
pulsa-pensa um odor
de covas movediças

encarcerando a alma encarcerada

domingo, 18 de julho de 2010

hagoromo - o manto de plumas

hagoromo - o manto de plumas


pescador:


vento veloz -
singram barcos ao largo
da baía de miho (1)

pescadores ditam
a rota marítima
das ondas


pescador:

sou hakuryô
pescador do pinheiral de miho (1)

acima dos altos
e belos cimos
nuvens céleres se dissipam

a chuva se esvai
ao clarão da lua
sobre a torre


calma estação
o pinheiral espera
a primavera:

a bruma da aurora
sobre as ondas infindas

a lua paralisa a visão

cena que transborda o coração
do memorável céu

inesquecível ! ao meter-se
nos atalhos dos montes -
a baía de miho

ao paraíso -
juntos iremos juntos
para lá iremos

vemos nuvens ao vento
que se movem similares as ondas
elevando-se do mar

os pescadores retornam
sem pescar ?

um instante ! é primavera !
um vento suave sopra cedo
entre perenes ciprestes

suaves ondas nas manhãs amenas

centenas de barcos

humildes barcos às centenas
com pescadores


hakuryô:

trilho os pinheirais de miho
onde contemplo a baía:
inolvidável

do amplo céu cai
uma chuva de pétalas -

tendões de vidro

percebo suaves sons
e um aroma que se dissipa
em todos os rumos

paro penso e vejo:
um manto formoso
raro e suspenso

aproximo-me
e miro : admiro
sua cor-aroma

ah! manto sublime !
vou colhê-lo e retornar
para mostrá-lo aos antigos

vou convertê-lo
lá em minha casa
em relíquia


tennin:

ouve: esse manto é meu !
por que o levas ?


hakuryô:

esse manto encontrei-o aqui -
por isso carrego-o
embora para casa


tennin:

esse manto de plumas
não pode ser levado pelos homens
é um sopro divino

deixe-o onde encontrou !


hakuryô:

esse manto de plumas
vem do céu ?
seria de algum anjo ?

por ser algo raro
vou preservá-lo e torná-lo
o tesouro do reino


não posso devolver o manto !


tennin:

ah ! que grande aflição !
sem o manto de plumas
meu vôo cessaria !

como retornar aos céus ?
imploro-te: devolva-me
o manto divino !


hakuryô:

tuas súplicas
não me demovem e ouví-lo
mais forças deu-me ainda !

sou hakuryô - o indomável -
e velarei o manto de plumas
não devolverei esse manto

e para casa partirei


tennin:

e agora: sou ave sem asas 
querendo voar não posso
sem o manto divino


hakuryô:

aqui é a terra !
- resida entre os homens -
(n)este mundo ínfimo


tennin:

desolado estou -
não sei o que faço
o que me resta ?


hakuryô:

não lhe restituirei
- apesar do seu ar triste -
o manto de plumas


tennin:

desalento é o que sinto...


coro:

um florvalhar de lágrimas
como pérolas de cristal
caindo pelos cabelos

grinaldas adornadas
por pétalas de lótus
fenecidas

tentáculos de visão:
sobre os olhos do anjo
em declínio (2)


tennin:

se volto aos céus
me envolve
a densa névoa

indistinto o rumo
para as nuvens:
incerto é meu destino


coro:

visão do céu:
alaridos entre nuvens
onde está minha morada

o canto familiar
do karyôbinga (3)

ave-paraíso alado
de doce (en)canto
do karyôbinga

desalento: já nem ouve

aves em escarcéu
vozes sem fim
vão além do céu

que voltam por rumos divinos

andorinhas e gaivotas
sobrevoando o mar alto
num vai-e-vem

um sopro de brisa
à beira-céu
saudades da primavera !?


hakuryô:

contemplar teu rosto triste (4)
me desalenta -
devolvo-te o manto divino


tennin:

um encanto me toma !
como uma bela música
recebê-lo-ei


hakuryô:

espere: ouvi sobre as danças angelicais
- o manto te devolvo -
se dançares

tennin:

ah ! grande alegria !
sem tardar
poderei retornar aos céus 

para exprimir
a imensa alegria que sinto
dançarei uma dança lembrança

para o vosso
divertimento
em torno do palácio-lua (5)

agora dançarei aos homens
em tormento

mas preciso do manto divino
para bailar


hakuryô:

não ! se devolvo-te o manto
voarás aos céus
e jamais dançarás !


tennin:

não há perfídia nos céus
isso é inerente aos homens


hakuryô:

oh ! perdão !
tome o manto divino


tennin:

já vestida com asas de plumas
vai bailando a donzela
a dança arco-íris (6)


hakuryô:

o manto divino
flutua no céu leitoso
ao sopro do vento


tennin:

mangas de pétalas
úmidas pela chuva
miúda e fria


hakuryô:

ao som da melodia !


tennin:

dançando !


coro:

surugamai - a canção do leste (7)
é uma diversão à parte
a dança do sol nascente

neste tempo
o céu limpo foi criado
- semprecéu é seu nome -

doravante tempos remotos
elevaram-se de dois deuses (8)

que deram origem
a dez rumos do universo

neste tempo
o céu limpo foi criado
- céu eterno foi chamado -

o céu : circunscrito
céu perene
foi denominado


tennin:

é eterno enquanto dura
- refeito com pedra-jade -
o palácio-lua


coro:

em mantos brancos
anjos rondam os arcanos do céu
em mantos negros

evoluem em trinta divididos
em dois pares de quinze
(9)

em noturnas luas
donzelas divinas dançam
uma após a outra

tennin:

sou uma donzela divina !


coro:

compartilho
da árvore-lua (10)
paraíso num só tempo

exibo a dança surugamai
ao sol nascente e conduzo
ao mundo esta canção

como pétala voa
dançarina da primavera
da árvore-lua

plana sobre a terra ampla
toda plenitude primaveril
com asas de papel

deslumbra a visão
o diadema de vidro
do beira-céu

é primavera em alaridos -
encantada com a bruma
cigarra sobre a pedra


vejam ! o excelso do céu !
brisas divinas voláteis
soprem a porta das nuvens !

oh ! donzela !
por um instante
voe sobre nós

desde os ciprestes
contemplamos a primavera-cor
do cabo de miho
o luar sobre a baía de kyomi
o eterno fuji envolto -
pela aurora florida

ondas e brisas
serenam a baía na aurora
entre os ciprestes

jamais se separam
céu limpo e terra ampla
- longilíneo horizonte -

nem a lua se veste
neste império nascente
deuses descendentes (11)


tennin:

ao palácio-lua do soberano
por breves instantes sobrevoa
um manto de plumas - divino e raro


coro:

o rochedo de jade perdura
esvoaçam ondulando as plumas -
um toque-de-seda

é inolvidável ouvir
trilhado por melodias suaves
o canto nascente
vozes flautas harpas
levitando além de nacos
de solitárias nuvens 

no rubro olhar do sol ruivo
o monte shumi espelha:
relvas verdes-ondas
oscilantes de ukishima (12)
tempestade de pétalas
varrem o céu


nuvens mangas
do alvo torvelinho
dançam seu esplendor


tennin:

reverência e louvor
ao supremo da lua
sua origem é sua força extrema (13)


coro:

a dança do sol nascente

tennin:

um manto do céu profundo


coro:

um manto arco-íris: primavera

tennin:

cor-aroma
o céu vestido de donzela -
inesquecível !


coro:

à esquerda e à direita
pétalas de lótus ornam
suavemente as mangas

esvoaçam
sinuosas e agitadas -
as mangas dançarinas

baila
o álacre sol nascente
vários bailados 

o anjo - cândido -
como a lua no céu limpo
ao fim da segunda semana (a)tinge:
a lua clara bela e rara

vários tesouros-veneráveis chovem
e ao reino dá o manto
guardado à sete-chaves

o tempo passa
assim como o vento -
o manto de plumas

sobre o pinheiral de miho
nuvens de ukishima sobre
os cumes de ashitaka e do fujiyama (14)

sublimes !
dissolvem-se no céu
do além-céu

sempre esvoaça
imutável no semprecéu
o manto de plumas

a visão se extravia: cálidocosmos


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Uma das peças mais famosas do repertório nô, é "Hagoromo -
O Manto de Plumas", que tem uma " transcriação / tradução "
para o português,feita pelo poeta e tradutor Haroldo de Cam-
pos. Ele recebeu de Darci Yasuco Kusano ( especializada em
teatro Nô) um texto bilingue de Hagoromo, uma versão peda-
gógica, preparada juntamente com a professora Elza Taeko
Doi, que consistia em uma tradução, linha a linha de uma
transcriação fônica, uma versão literal na ordem sintática
japonesa, e, uma segunda versão já normativizada, ou seja,
havia uma tradução completa, dos pictogramas e ideogramas
japoneses, para o japonês ocidental,e por sua vez uma tradu-
ção para o português. Foi daí, que Haroldo de Campos partiu
para sua transcriação/tradução de Hagoromo, que por sinal
sinal, ao meu ver, é melhor do que a versão pedagógica das
professoras, pois ele acrescentou a sua poesia à tradução.

hagoromo – o manto de plumas

Hagoromo, o Manto de Plumas pode ser resumido como um
grande haicai ou um poema-peça dançado, que apresenta
dois personagens antagônicos: Hakuryô, um pescador de co-
ração pétreo da Baía de Miho, e Tennin, anjo-donzela budis-
ta que volta à Terra para recuperar Hagoromo, o manto di-
vino sem o qual não poderá retornar ao céu. Após tristes sú-
plicas do anjo agonizante, o intransigente pescador se como-
ve e resolve devolver-lhe o objeto precioso. Mas antes,Ten-
nin deverá lhe conceder uma dança com seu manto celestial.


TEATRO NÔ (NOH)

Nô, Nou ou Noh (Japonês) é uma forma clássica de teatro
profissional japonês,que combina canto, pantomima, músi-
ca e poesia. As atuais companhias de Noh estão localizadas
em Tokyo, Osaka e Kyoto. Interpretado apenas por atores
masculinos, que passam sua arte pela tradição familiar.
É uma das formas mais importantes do drama musical clás-
sico japonês, executado desde o século XIV. Evoluiu de ou-
tras formas teatrais, aristocráticas e populares, incluindo o
Dengaku, Shirabyoshi e Gagaku. Suas raízes podem ser en-
contradas no Nuo - uma forma de teatro da China.

Um de seus mais importantes dramaturgos foi Zeami Moto-
kiyo. Por seu lado, deu origem a outras formas dramáticas
como o Kabuki. O " Noh " é caracterizado pelo seu estilo
lento, de postura ereta, rígida, de movimentos sutis, bem
como pelo uso de máscaras típicas. Possui em Zeami Moto-
kiyo (1363-1443) o codificador maior dessa arte. Com um
repertório de aproximadamente 250 peças, o universo Noh
é habitado por deuses, guerreiros e mulheres enlouqueci-
das, às voltas com os mistérios do espírito.O foco da nar-
rativa se encontra no protagonista (shite),o único que por-
ta uma máscara. Shite é um espírito errante que exprime,
de forma lírica, a nostalgia dos tempos passados. O coad-
juvante (waki), geralmente um monge, não interfere no
curso da ação,apenas é revelador da essência do shite.Um
coro e quatro instrumentos auxiliam na condução da trama,
que se soluciona através da dança. Esse coro,vale destacar,
possui uma função dramática decisiva, conduzindo a narra-
tiva.O " Noh " é a fusão de poesia, teatro, bailado, música
vocal e instrumental e máscaras.Os diversos elementos mu-
sicais são estreitamente entrelaçados numa simbiose entre
o canto e a pantomima. No Noh, a descrição de cada cena
repousa unicamente no texto do canto, nos gestos e nos
movimentos do ator.
........................................................................

HAGOROMO - O MANTO DE PLUMAS / MINHA VERSÃO

Minha versão consiste numa transcriação das duas traduções.
Uma comparação entre uma e outra. A partir daí, recriei
Hagoromo sob a minha visão. Menos complexa que as duas
mencionadas,mas mantendo o mesmo sentido poético. Não
tenho a pretensão de ser melhor nem pior. Apenas estabele-
cer a minha visão de Hagoromo.
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Hagoromo - O manto de Plumas, é uma peça do teatro Nô
japonês, escrita por Motokyio Zeami ( 1363-1443 ) trata-se
de uma peça que mais parece um longo poema, o qual foi
comparado a um "HAICAI" amplificado, pois só alguns mo-
mentos são enfocados - os de máxima intensidade - e ape-
nas sugerindo o restante do drama. é uma breve composi-
ção que pode ser vista como uma dança ou um poema dan-
çado ou uma elaborada metáfora dançante. o leitor terá à
sua disposição notas sobre o texto,onde se explica algumas
passagens, para que ele compreenda melhor a peça. boa
leitura.

Notas

1. Pinheiral de Miho: praia ao sul do porto de shimizu (ilha

de hônshu), bordeada por um pinheiral (província de suruga).
do local têm-se uma vista magnífica do monte Fuji;

2. Gosui: cinco estigmas - quando um ser celeste está para
morrer aparecem os sintomas seguintes: flores do seu diade-
ma murcham; suas vestes cobrem-se de poeira; das axilas
brotam o suor; as pálpebras tremem e o cansaço o toma;

3. Karyôbinga: pássaro de canto maravilhoso. pássaro do pa-
raíso budista;

4. Hakuryô: malícia do velho pescador. impõe a ninfa da lua
(anjo-donzela) suas condições, sob pena de reduzí-la ao exí-
lio das terras sombrias, antes de devolver o manto.

5. O budismo considera a lua, domínio do monarca da lua,

que habita um esplêndido palácio,servido por donzelas celes-
tes. aqui denominado de " palácio-lua " ;

6. Dança arco-íris: referência a dança das donzelas celestes;

7. Surugamai: dança da província de suruga ou região leste,
do sol nascente; aqui uso o termo "sol nascente". referên-
cia ao reino ou ao império do japão, como é conhecido até

hoje o país;

8. Dois deuses: nijin - deus izanagi (leia-se izanagui) e a
deusa izanami. pai e mão dos deuses no panteão xintoísta;

9. São 30 anjos. 15 de mantos brancos e 15 de mantos ne-
gros. na lua cheia, concorrem e dançam juntos, todos de
branco;

10. Árvore-lua: katsura - planta lunar. cássia ou cinamomo;

11. Deuses descendentes: referência à deusa amaterasu ô-
mikami, divindade solar, iluminadora do céu do panteão
xintoísta;

12. Oscilantes de ukishima: ilhas balouçantes de ukishima.
ventos oscilantes;

13. Força extrema: daiseishi - grande bodhisattva / terceira
pessoa da trindade búdica - " sei " significa força, energia -
já " shi " quer dizer extrema, excessiva;

14. Ashitaka: monte que segue em altitude, o monte Fuji;

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referência bibliográfica: hagoromo de zeami, CAMPOS
Haroldo de (1929 / 2003) - transcriação do original ja-
ponês hagoromo zeami / Editora Estação da Liberdade;

quinta-feira, 8 de julho de 2010

atmosfera âmbar ( o fôlego das metáforas )

atmosfera âmbar
( livro três / o fôlego das metáforas )
em quatro cenas:

- a solidão do céu
- as trevas suspensas
- o céu de corvos
- o purgatório


os personagens
o poeta
o pianista
a dançarina
o bêbado
o barman

.....................................................................................

cena um ( a solidão do céu )

o poeta

curvo-me à sombra de risonhos bocejos en
cravados sob átomos polidos onde vermes
de mim mesmo anoitecem seus fantasmas
náufragos nervosos fios de baba salobra

rigorosos olhos onívoros odores blindados
de sabre são forjados em fôrmas de bronze
no horizonte vítreo:rasga(m)duras vertigens
nos revérberos bêbados das vértebras frias



o bêbado

se bebo para embriagar-me ?

é para ter certeza de que o olho esquerdo
não me e(n)ja(c)ula mas me salva do direito
de ser prisioneiro desse fogo que exala



o pianista

- sabemos

a agonia dos ossos
e a dobra das ondas

os irados sentidos
e a sina dos corvos

não poupamos elogios
à loucura dos gênios

nem a nódoa sobre o mundo
nos envolve em mudas sílabas:

- os poetas sabem das palavras
nós sabemos dos poemas...



o bêbado

à embriaguez:

esta divina cotidiana
mente

que nos convida a beber a
tequila da vida



o pianista

sem sombra de dúvidas:
gosto de ver o olho ab
sor
ver
traços suspensos



o poeta

ouvir o cálido nervo no céu calêndula
ver o abutre olho rasgar o osso amêndoa

a trama do verde entre a rede e a varanda
o vurmo do ventre sobre a espuma e a pedra

( primavera de trevas e líricos cristais de ouro-luz )



o pianista

o que se descortina além de gravuras ?



o poeta
são os dias que se vão
e essa noturna armadilha
a irromper densa
(n)a tarde breve e vária:

- dançam as estrelas como se o silêncio
conspirasse improvisos contra a solidão do céu...



o bêbado

serei eu
a face bêbada
que gangrena restos da retina ?

a desdobrar liquefeitos verbos
c(r)avados em díluvios de ouro
onde me revolvem dolorosas larvas
pálidas de rima ?

num relâmpago de fósforo:

a áurea primavera aura...



o poeta

à deriva do horizonte
o crepúsculo cresce
reina e dá de ombros
e não raro acena

- eis a cena:

um rio trans
borda

mil veios róseos

nas rimas da anatomia



...................................................




cena dois (as trevas suspensas )




a dançarina



o rio é o enredo
e o estio é o segredo ?



o poeta

caminhamos ruas
até nós de trevas

e a vida conti
nua pelo prisma dela

nesse lixo cotidiano
que se perfila



o pianista

scarlet: letra escarlate
não como
uma cadela que ladra
mas besouro que escarra
o ouro vítreo da larva...



o poeta

o
ru
mor
do mar
é murmúrio
ébrio sem rumo
derrama-se em rum
nas rochas onde ossos
encilhados tentáculos bor-
bulham avessas armad ilhas

maravilhoso ?

o corpo ilhado sobre o corpo ilhoso
mar de ilhas e irados sopros



a dançarina

melhor do que partir-se
ao meio o ventre
é sorrir por entre os dentes ?!

não suporto sargaços
guizos trevas rubis
vermes vestidos tralhas

só sei os nervos quadris
e as unhas grisalhas



o poeta

a flor cobre o corpo
- crisálida

a onda baila a concha
- cálida

a libélula larva púrpura
- florfalha



o barman

a cigarra é uma estrela
sobre o mármore da pedra
a zombar da farra



a dançarina

não há trama mais sórdida que trans
ponha a aurora da larva que se mesura ?



o poeta

entre o sepulcro
e o lucro de viver
da harpa áurea:

- trânsfuga



a dançarina

a usura da lapidada lâmina ?



o pianista

à duras penas
o amor indômito
sem labor ou encargo
só frêmito ódio e vômito



a dançarina

não há
(a)ventura neste porto
que me resta
a não ser névoa

ao vento úmido hesito
espessa sangro
à sombra das horas

não calo em vão teu gosto: es-
c(r)avo-o em meu rosto



o poeta

no oceano de vidro
navios quebram proas
o vento zomba das frestas

a espuma sob a bruma
como flocos de fios de lã
sobre os flancos das pedras

é o mar macabro da manhã
a beirar o céu das trevas



o pianista

o beijo da alma sabe a solidão



.....................................................



cena três ( o céu de corvos )




a dançarina



ardem arbustos
no limbo do inferno
sobre pedras-de-jade

um sobe-e-desce
no corpo disperso
de retido hálito enxofre



o pianista

é preciso en-
(vol) ver-se
no abismo
céu de fósforo

ali onde o beira-céu
assedia estrelas

numa ingênua
e púrpura odisséia



o bêbado

ao riscar um fósforo
e ouvir o silêncio
de vime cortado
o olho perscruta
uma voz no (ó)cio

o sol exprime
seu timbre delirante

(n)as curvas unânimes
do arco-íris espumante



a dançarina

à espera de que as (ab)sorvam...



o barman

ah ! mariposas ! famintas por gozos !?



o poeta

não dis
sol
vemos os sent
idos
da lâmina prata
e abissal da pálpebra
do corte mínimo
e noturno alumínio



o pianista

corvos é o que somos
ou engodos ?

o poeta grava na memória
cenários da palavra

versos duros da história
que trilha a alma e lavra

( despidas de concisão fixa e acessória )



a dançarina

ah! o fôlego das metáforas!

- pétalas de papoulas e (ver)rugas avaras -



o bêbado

o olho vazio sabre - o dia vadio engendra



o poeta

ouve o vento:

timbre da tarde
que rói o sol curvo
e noturno uivo

antes que anoi-
teça(m) violáceas
balas de aço

espumas salivas de sangue

- o tempo é exíguo -

sob a árvore
o olho ruivo
do sol fulvo
o tédio nada ir-
rompe

à noite
é um açoite
na estrela carcaça

- o tempo é resíduo -

olho oculto
único
sol intruso

inerte e fixo
posto apodrece turvo

( moluscos devoram crânios )

- o tempo é ambíguo -

cartilagens cartuchos
cristais de carne
o tiro pela culatra ?

mil olhos murchos !!!

abaixo sobre
a têmpora ou o mamilo
ao coração não há fuga
nem exílio

só o retumbo
som da víbora

( sede secreta )

a

(t)
arde né voa

n
um jorro (im) preciso

se es-
vai para fugir
dessa
colheita

o corpo meta-
fora

um sopro (in)di
gesto um tiro a-
teia tarântula penetra
extrema nas frestas
dos nossos ossos

não traço em meu rosto
rasuras
nem teu céu azul ilhado nu

quanto mais a varredura
sorve dos ossos
o espectro líquido

argilosas granadinas
cobrem de salpicos
salmilhados os tijolos

não a-
tinjo o céu de ouro
sem que o brilho
de topázios ditosos
me leve desta tarde in
de(cre)scente

na penumbra
uma ave plúm(b)ea
a íris engrena

um véu grisalho
uma estrela nébula
na tarde anêmona



..............................................



cena quatro ( o purgatório )



o pianista



o céu de isopor
uma orquestra de erupções
de signos onde sóis perseguem
esmeraldos pássaros raros

engendrando seus segredos sem saber
da solidão das cabeleiras grisalhas

o céu paisagem
de espanto istmo universo
onde sóis singram-me o ventre
como um sabre entrecortando

do pulso à virilha a névoa da retina
o amplo céu vasculha a solidão dos sentidos



o poeta

o alvo
seria o olhar
da brasa cotidiana
nessa clausura assombrosa
de acordes rosas

num colosso de ossos
o cheiro da carniça
e a carcaça de (s)o(m)bras

sob o sol odiado
de amarelo mortuário
do céu de odessa
a rufar no crepúsculo
incendiário das estrelas

no rugido da noite
um ranger de dentes
e o convulsivo gozo
da engrenagem

- épica odisséia -

à míngua do musgo
moem o lixo
mandíbulas de metal



a dançarina

rastejo
até esfolarem-me os joelhos
carrego-os coroados de vermelho
nos olhos ponho sal e saio dos versos
dissol
vendo-me em náufragos gozos



o bêbado

escarro um verso
não raro como rimbaud
mas um bêbado à sorte

escravo de mim mesmo
ando curvo como foice
a procura da morte



o pianista

elevo-me censor de duras silhuetas
s(o)uave entre a névoa e a montanha
(ex)traio a palavra estiagem larva lírica
e me infiltro de soslaio no inferno

- não sou louco pelo que digo e singro
por este olhar que me espanta e sinto ?

porque cargas d' água pedras de mármore
são mistérios e memórias são rumores ?

- não sou verme (re)velado pelo espelho
mas alvo que - como um preciso dardo -

o olho mira ( olho que vejo outro )

andarilho



o poeta

ouvir o vento tecer fragmentos breves e borboletras grávidas
a revoarem no sereno (in)destino que lhes vislumbram entrelábios
latejos devorados sentidos numa overdose de silhuetas espumas

basta (es)cravo (n)o esqueleto oco que se estilhaça nas dobras
duras das sobrancelhas que bradam sobre um céu espumado
de velhos corvos onde solspiro mil centelhas nas treliças do tédio

nocivo gozo e sorridente esboço da vida turva - o que é difícil e
inútil - mas que esmigalha e estorva - o que é fácil e fútil - mas
que vasculha e transtorna - em um conciso vício de vulvas

úmidas no fundo do fosso há dúvidas: horizontem noturnos entre
ruídos raros de (a)morcegos e cabele iras (r) uivas de imensos
fôlegos e tremo-te: grãos de cravos nos olhos de ampulheta

nas barbas cintilas guelras de aço da chuva ácida abrindo sulcos
ouroespinho em veludo negro orvalhando álacre nos galhos da es
cassa cereja corpo albatroz ouriçando mariposa de dourado linho

onde ardo grinalgas andarilhas espátulas de lótus como a fruta
podre ou a ma(r)remota medula ferrugem de madeira moura
tombada de ternura núbia nu vens em mim sentir (o)dor de estrelas

anônimas esgarçando-se nos rins do orvalho - sinta o mesmo cor
céu contemplado de medusas luas do istmo mar sangranado
de salamandras estrias intrigas levedadas de filigranas pétalas
de mármore vertem em pedras filiformes meandros de metal



o barman

viva o dia em movimento

o silêncio se vê mínimo

breve oceano de grãos

do poema árido

nadando em ondas de mármore

quarta-feira, 7 de julho de 2010

o silêncio do silício


o silêncio do silício




- há o silêncio:

um nó na garganta
se agiganta só

? por qual poema grito ?

por um ou por todos
que me escravo -

? por qual palavra explico ?

por uma ou por todas
que me explicam -

porque estou escre-
vendo (n)este espelho entre
o olho obsceno e o aceno ?

vejo cenas em meu rosto trêmulo -

( o silêncio entre os dias odiados )

o cio entre as pernas do céu

nu-
vens em mim
sen ti(r) (o)dor

ah ! o silêncio ! qual não lhe perturba ?

o da noite que perdura
o do dia que (en)cla
usura

ou do som do cílio
na selva do sol ouriço ?

o silvo do sino
o insosso escarro da rima roída
do silício ?

cristalino quartzo aturdindo rochas
como o silêncio precioso
- pedra valiosa -
tal o perturbador lírio

" delírios da doce lira que o silêncio assiste "

segunda-feira, 5 de julho de 2010

pétalas de ópio


pétalas de ópio



flor orgias no entrecéu
onde as estrelas
são:  tempo

o tempo é pó
urdido no arco do céu
tendão de vidro

entre pétalas de ópio
os fios dos dias
são: seda

o sal da língua - saliva -

(trans)borda
presságios de trégua

in morocco



in morocco



tendo
ao fundo
os montes atlas
com seu manto blanco
no horizonte eterno ocre
muito antes das desnudas
dunas de menara e quarzazate
- Marrakech: há pátios de berberes
convivendo áridos nômades de sempre
beduínos malabaristas víboras dançarinas
dromedários elos entre passado e presente

como
aquarelas
delacroix um
oásis de terras
amplas saarianas
africanas no esplendor
cosmopolita áureo de Rabat
a cedro e ferro fundido tangendo
Tânger que seduz postada à porta
do gibraltar al-andalus (ou)vê-se pelos
minaretes (c)orações em medinas palacetes

em
punhando
punhais a céu
azul um xador
(en) cobrindo rostos
oh! quantos mil rostos belos
da cidade vermelha de barro
(re)vivem e morrem em Marrocos
seus corpos sob um céu mediterrâneo
mourisco en dia brado de “al mourrakouch”
dos “ sabaâtou rijal “ poesia arábica ritual

de ruas
e ruelas peri
féricas quadricu
ladas de Fez esta já
virada para meca mel
o dia de dantescos sons
marinados em ácido absorvi
(vi) dos por humanos do inferno
assim se fez um labirinto de hortelã
favos de imensos alvéolos sangrentos oléos
de todas cores e cheiros e pecados terrenos

onde
os sent
idos inebriam
gravadas sombras
na memória de los muertos
- “ pour le plaisir des yeux ” -
in sha’Allah um café em Casablanca
de marrom marroquino que morram os in
fiéis tenham fé que a vontade divina se fará
e a vontade ruiva do sol em Rabat azeite óleo
ambarino de um leão indomado aceite de Ceuta

ou
Sevilha
de águas
do guadalquivir
de cobre eu construo
um claustro de menta
em teu rosto atormentado
de dueña entre tâmaras videiras
infestadas de fiestas de aguardente
poesia amêndoa de oliveiras salivas
de bocaberta a fulva alberca do alcázar

um
café em
Casablanca in
Morocco onde moro
e resíduo estanco o livro
e resido e revivo e redecifro
um vinho petrificado e frívolo
sobre o mármore doceano atlântico
refechando o livro roendo figo-do-diabo
num dromedário de pêlos albinos no deserto
sobre o asfalto de negro intenso perdido sigo

o signo
branco me
empororoco in
Morocco implorando
teus poros estes sopros
de esgotos esfiando-me gotas
de café em Casablanca borra de café
não tenho fé morrerei de ira de pó-de-lira
da poeira da poesia da azia da má digestão
não não morrerei pela boca nem fisgado pelo pé
nem pelo coração só penso morrer no mar de agadir

dá no
mesmo e
me dá arrepio
feito uma lâmina
sem fio sem língua
sem fábula sem nádegas
outra vez minha casa branca
de telhado gris alho lombrigas
consigo mesma lesma sem mandíbula
sem retrato contemplo o tempo contém o pó
do tempo tenho pó nos olhos no soalho do templo

já faz
tempo pintei
com tinta têmpera
tuas têmporas escrevi
um poemeu poe metendo-te
em teus meios sem perder o per
dor de tempo amei teus seios ventre
virilhas nádegas brancas coxas deixei-te
roxa nas ancas tão bela de tranças dormindo
furiosa mente úmida na manhã âmbar de Melilha

num bar
de rua onde
sento e bebo
teus sonhos meus
sonhos nossos sonhos
ardidos na garganta e não
lembromélias nem ofélias do
cheiro de urina vaso de porcelana
só me recordo da cama macia da tua
pele no cio do tempo em que estivemos
em silêncio camaleoa ferrugindo milgemidos

ébrios
entrentáculos
de búzios nossa
línguastuta é canibal
e feroz neste ato contemplo
um complô de algastristes nos olhos
soçobrados pelas frinchas da fenestra
a luz irradia resinas e devasso-te do avesso
som de sossego sou cego e cessa tua voz
de morcego teu chamego chamacesa de deusa
grega sou teu vassalo e rego-te escassa selvagem

que
o denso
orvalho gan
grena teu suss
urro travesso de ursa
o tempo se acaba na porta
que se abracadabra cabra da peste
o tempo investe em teu corpo um tussor
de seda persa e fecha refecha infesta em
suas ancas e suas meias de Casablanca sonhos

medos
solidários
sóis diários
consolidáriosóis
com sorte suas entre
meias não serão rasgadas
com minhas unhas uma a uma
em meio a bronha diária do átrio
solitários sorrisos vertem de tua boca
arcaicabarrouca arcabouça arca de louça
galega ouça tua língua extremadura leiga

ossos
o gongo
primeiro round
era uma vez era
o segundo fluxo refluxo
doloroso gozo zonzo de gás
ozônio e lixo arsênico sabor luxo
da pêra áspera de raia-lixa limando
a língua rija e removida bactriângulosa
de veias onde há poesia extravasa palavras
explodindo como guernica sangrada de mil metais

e bru
mas elev
ando-me sobre
o corpo podre de
caos e delírio a barra
bravia arrebata o vento
vindo do revolto mar de Almeria
onde sereias servem-se de mil redes
vazias de solidão e trago dentro de mim
a dor de não ter sal amargo na boca de lábios
rachados onde a concha bate nos inacabados

molhes
esverdeados
são teus olhos
marinados são meus
olhos avermelhados são
teus seios atormentados são
meus sonhos amarelados são
nossos céus de sonhos onde ventos
há muito assolam a terra ampla dome
o medo diário este dromedário de pedra
que lhe há dentro um café em Alhambra

com
os meus
dedos medo
nhos entre suas
dobras de língua
dura através e salta
sobre a virilha e se abre
e se desdobra e se descobre
faminta de saliva onde penetras
vértebras de seda em fendas de um
odor oloroso de sal o ventre com unhas
de vidro gangrena teus segredos em narinas

suicidas
teus becos
sem saídas o pavor
dos pulsos dos sulcos
dos olhos dos sonhos são
os mesmos passos de simesmo
este demônio sentido insano mais sol
itário que exaustos astros-lábios sobre
insaciáveisseios que se abrem róseos es cor
rendo óleo enquanto dormes a dor me seda a dor
mecem os dedos roçam os seixos roem os dentes

os abutres
comem tecidos
sob um orvalho embru
tecido do silêncio e tudo
não passa de engano de um
engasgo que suporto um amargo
sonho diário onde somos nossossonhos
e somamos os medosonhos e só amamos
somente nós e seremos rasos e parcos nessa
areia vazia de arco-íris de barcos cisnes negros

ossos
flor orgias
ardiam à beira
d’água salgada longes
rios e lagos de saudade de ti
de tua terra de quem era uma
vez era uma vez era uma vez era
uma megera a insônia onde os cílios
não se abrem a concha se fecha em névoa
sopro de prosa uma sopa de rosas uma glosa
de ostras soletrando solemio o sol é meu o sol

é teu
o sol en-
trando pelas
fendas das furnas
e é meu o sol ondeando
em plumas de bruma e acor
damos num sonho de meio-dia
aos trancos solavancos afagos vários
entre tuas ranhuras minhas intrigas seremos
mandíbulas de nós mesmos pálidos dissolvidos
num dilúvio de lama de mar de porcelana de corpos
de salamandra de lã de salamargo de Salamanca de sal