quinta-feira, 21 de março de 2013

o canto


o canto 


I

escadaria: aves de rapinas
corpos ásperos em frente – em túnicas abracadabrantes –
ao templo sagrado o breu da
noite-violeta
quanto rumor entre o
purgatório e paraíso [ defl
                                        orar a palavra desfolhadura ] luz e sol-

vê-las voláteis primaferas celestes – desme(cen)surá-la –
( luciferinas primas esferas )

II

com ponta de diamante
sobre a pele açulada
o voo alto noturno partindo o
lacre através da língua
é agora o começo da viagem: [ um dos corpos – quem move tuas asas – ]
na roda-gigante de Saturno
move-se e sempre entre
jarros de alumínio onde
lírios crescem
às pupilas

III

o outro – pássaro tão raro – volitando
lástimas em espelhos imaculados
rompe o calendário da ternura [ as unhas (cor)roídas
as espáduas cavadas ] do olhar ao
relento sob um céu de carvão em que
estrelas são somente estrelas
e nada mais

IV

o outro: inditoso
semicerra as sobrancelhas
e diz – os deuses estão mortos – sinto cãibra
em meus cabelos e o sereno
sobre a terra em pó
umedece além
às raízes

V

à memória dos deuses
este ambarino olhar e a
noite embriagada de
pirilampos irosos
e áugures

VI

só (de-)
pois de fato
os corpos não suportariam uma
garrafa de absinto já que
– no voo da escadaria –
veriam homenzinhos verdes

VII

trovões e camisas de vênus se
compartilham num céu de fábula – o odor raro
da trama entre lençóis um após
outro sussurro no tédio
das gárgulas

VIII

o canto: abre a
porta do templo
adornado de corvos [empoleirados alhures ]
em argênteas filigranas
à margem da carne
sem a empáfia contumaz
que se dissipa como a bruma se dissipa em
silêncio de vidro [ chispas contra a pretidão
do horizonte ] num cício
de lágrimas

IX

havia
um outro agora
nutrindo o mar: de amêijoas amêndoas -
encrustadas sob o cais onde
instalou-se um cárcere
de presságios

X

dizer que o
dardejar dos artelhos sob um
olhar colérico à pleniluz
anatomiza os corpos [ ecos inconformados ]
coroados de crisântemos
é como a(s)cender (a)o crepúsculo onde
perambulam corvos
pelos sargaços da
escadaria


terça-feira, 19 de março de 2013

anjos da ribalta

 
anjos da ribalta 

 


 I.

a desmesura
rompe a porta e entra sala adentro
- para sempre –
à sombra de uma estátua grega
...

as más línguas se debatem
agourentas: as palavras inauditas
entre quatro paredes [ cor de chumbo ]: é o fim do mundo –

gelosias levam aos elogios
mútuos impossíveis – de não se ouvir no trigésimo andar do prédio
[ lá onde as estrelas são revistas diariamente num céu pardacento ]
aos cotovelos se aglomeram
vizinhos pelos corredores
de um metro de largura

II.

a arena está criada:

de um lado os apoiadores do homem
do outro os defensores da mulher

[ os sapos ficam de fora
em charcos coaxando
aos pulmões toda realidade ]

em cada fio de cabelo
solto ao ar urros de glória
de ambos os lados

instala-se
aquiagora uma luta homérica
sobre o mármore travertino
na sala no quarto na cozinha do casal:
cabelos jorram aos borbotões
entre as fasquias das janelas – à luz do luar –
esvaindo-se grisalhos

III.

vê-se
os flancos abertos
e tanto opositores
como defensores – desamparados –

não há vísceras tombando
– o sangue não jorra das barrigas –

tanto homem como mulher
usam unhas [ no caso dela ] e punhos [ no caso dele ]
apenas

crivam-se de palavras emaranhadas
de cócegas um ao outro
provocando risos em si

incrédulos – opositores e defensores –
reúnem-se pelas fímbrias
e apenas murmuram
coisas tartamudas

IV.

eis que o bando do deixa disso
invocado - sabe-se lá por quem -
comparece dissolvendo
o caos instalado

corredores são limpos
homem e mulher separados
e reclusos cada um
em sua redoma

nada grave - diz um opositor enquanto ao seu lado
um defensor acrescenta: falta de labor da díade
[ filhos do tédio – mimos da sociedade – ] sem rédeas

silêncio neste bordel : caso encerrado !
limpem a área e retornem aos seus leitos – brada o porteiro

lá fora ouve-se
o coaxar dos sapos
– insensíveis os sapos –
pelas catedrais da cidade

homem e mulher [ em suas miudezas ]
constelam-se de fósforo
 
 

quarta-feira, 13 de março de 2013

netuno vociferante

 
netuno vociferante
 

I

caravelas
dão à beira da praia
ardendo a pele da sereia
numa ópera onde Netuno - vociferante -
flagela o silêncio
da pedra

ouve -
o silêncio da sombra
ressecar teus ouvidos
arrepiar a epiderme
do teu ventre
em gotas
sob um sol
sândalo

II

rumor: mar de ardósia
sobre (br)ancas
estrelas do mar [ domar
as ondas (e)fême(r)as ]
que lavam a alma gris
 
[ o som
uníssono do mar
repulsivo no grito
de uma gaivota ] o (b)arco
a íris do peixe-voador
num voo desgarrado
sobre o convés

III

as pupilas densas
de uma lua tresloucada
à luz do mar
da tranquilidade sobre
crateras de cristais
dos teus poros

intenso o jorro
do crepúsculo sobre
o dorso suspenso
do céu azúleo - útero crescente -
mais espesso que o mar
de aquarela

IV

concha
entreaberta [ tridentes ]
num sorriso alvíssimo
que invade rochas
onde mansamente
o dia em mormaço
te recompõe

ouve -
o mar o mar o mar
num vai-e-vem na areia
[ tentáculos em tuas coxas ]
inebriar os lábios
da medusa


sábado, 9 de fevereiro de 2013

exercício do olhar


 
 
exercício do olhar
 


o olho uníssono
vê : pálpebras polidas onde se exaure
o olhar de luz e sombra
raro circulado de fetiches

unhas à lufadas de hálitos
entre papéis de parede e redes na varanda

uma forma de ver
o comover de crepúsculos primaveris
o cicio da boca

o olho
aspiro esse olhar em pretidão
onde não há espinhos de rosas nem anjos de asas
de seda

somos uníssonos sombras luzes
e poeira

quem ? somos ? eu não falo por mim nem por ninguém !

meus olhos vi(d)rados – vê : madrepérolas íris em cor

[ pó e ira sem eira nem beira ] arco-íris
um siri anda de lado
na areia da praia

e as pombas-rolas encharcadas
na calçada em frente de casa
sem casa

como eu sem nada sem asas
e somos uníssonos dizem
as más línguas

vê : maltrapilho que sou

lembra daquele romance ? não me recordo do nome
do autor do romance
que não deu certo

enfim – o olho vibra fecha e refecha
[ cheio de remela ]
e ouço o mesmo som
a névoa que há
na varanda
 
 

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

versos íntimos


 
versos íntimos
 
a virgem [ melancolia ]
entre árvores amendoeiras – perfume de lavanda [ na noite ]
 
o caminho é um só sem retorno
a ver alheio de mim as es-
camas fétidas onde exautos corpos têm o poder
destenebrante de foder até amanhecerem-se: eis o purgatório
 
ouve –  o vento lá fora
primavera desnaturada
alçar o voo do corvo à espreita

sobre o alpendre ( com olhos com olhos )
membrana sobre a cabeça em borbulhas negras
enquanto o crepúsculo varre
 
vê-la : a cabeça pétrea girar logo : come-a
[ cabeça de pássaro corpo humano ]
a virgem descabelada
 
seria tudo lixo líquido decorrente do âmago
dentro o escuro mais es-
curo minhas unhas de argila e cicatrizes ?
 
contra um céu a golpes de neon
este olho em círculos domésticos conduz-me em crescimento
amplo e aqui quebra-se a ampola: um pó branco
 
cai no branco do papel esmigalhando-se
nas narinas das mariposas
 
o vento – depois de um nó dois nós – depara-se
com o vapor torpor das vértebras indecifráveis
e cessa
 
ver : vinho no cálice
para sempre envelhecido amadeirado em carvalho
entre veludos e pétalas
 
eu – uma forma de rever o pássaro – já carcomido
por onde dedos se lamentam de casulos cítricos
 
a virgem
íntimos labirintos de amêndoas e – não bebe pássaros –
só nos resta recolhê-la incendiada – perfume de lavanda [ noite ]
 

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

universos e teorias



universos e teorias

 

o verso
sorve a palavra que deslavra a larva
serva de si mesma

- a palavra no varal - seca ao sol
dissolvido convertido em alaridos

o poema teoriza o sentido que a argila
erotiza
sem ser absorvido

a estátua sobre a mesa - está tua
face livre de palavras e versos
de vidro

a estátua é tua e não minha
caminha na direção inversa da palavra do verso
do poema

teorema que rema sem teor num rio
de corrente de lava
extrema

trema : marte
mater : traem as palavras

as terras rubras secas
onde astronauta algum pisou ?

morte : o amor
sem norte o (a)mor cego
o poema vira pó na caverna

astro : ostra
rato : rota
rastro de um ator

[ a pérola da palavra ostra ]

rola da mão para dentro
o limão até a virilha que se abre - ostra -
e com a línguaviva - o reverso -

estremece a cítrica ostra - a palavra hipócrítica -
quando se abre a concha
e morre

a estátua não comove

 

domingo, 26 de agosto de 2012

des[ construção ] ( des )conexa - escarceunario

 
 
 
des[ construção ] ( des )conexa


escarcéunario


 
ave
voraz
avestruz etrusco
albatroz atroz
se vê ao vê-la
alva na árvore de avelã
ao avesso na vala
se evola algo dão fio de lã
vela verme ver-me verte
ver-te verde
o vurmo vêde
(s)em rumo vórtice
vólucre álacre
desafio a meada
a moeda o ocre
o creme doce acre
o podre o bruto
a pedra brota
como
amar remar somar
hagar horrível amou helga
ivan terrível
amou sete mulheres
matou aos milhares
rompeu as muralhas
e na melhor das hipóteses
as teses são hipotecas
ou pipocas
como
o hangar de avião
explodiu
um navio fantasma
que ninguém viu
o pavoroso pavio
de pólvora
polvo rosa
o povo em polvorosa
os ramos amarelos
avermelhados elos
olé diário lhe dá de relho
melhor seria a rolha
do que o ralo
- ralho e ralo -
a rola no lero-lero
nem vem querer
que também quero
quero-quero
recruta zero
mel de abelha
estrela estrila
a trilha do horror
o rol da pomba-gira rola
além do olho o arrulho
rolo olor loro marulho
barulho no bar
oooo rrrr llll oooo
bêbados andarilhos
trilhos trilha tralhas
mil ilhas milhas
melão mamão melaço
entre as pernas o aço
faço um laço de fita
dé ri mé fi sá ló
sim o sol
se põe hipoglós
essa glosa é ótima
hipopótamos aí
pó um átimo
último em meu íntimo
há em ti amor ?
roma romã
luar raul
aroma amora
morango moranga
rango danço um tango
um ranger de estrelas
lê em mim sky
poesia pois é poesia
estais no céu
da boca azia sais
má digestão
desconstrução desconexa
anexa a palavra anoréxica
lavra vara a terra
varre a lava
a larva escorre
de ré e revolve
a terra a poesia
se resolve um tiro de revólver
vou ver a poesia
em minhas entranhas
mas que coisa estranha
essa aranha numa teia
sou ateu sou teu sou meu
ao léu à-toa na boa em lisboa
flor-de-liz
sou feliz
sou céu sou cio sou sul
um til na palavra mais vã
a poesia no divã
pois a poesia
está na palavra
e não fora dela
cadê-la ?
minha cadela
a ferro e fogo
forja ela foge
fogaréu névoa
londrina voa
pela américa latrina
uma ave nu condor
vem e leva adão e eva
a morderem a maçã
serpente em teus cabelos
belos é uma medusa
me usa me abusa
tira a blusa nessa tarde
meuteu corpo arde
em vaga-lumes
eleva-me
elevador ao salvador
ao sal da dor
ao soldador
ao sol a dor
leva-me lava
à luz do sol
no azul do céu
a cicatriz
em mim tua unha
um escarcéu
um escarro no cenário
um rio diário
um dia
eu ia
ai de mim
sem a poesia
 
 


sábado, 25 de agosto de 2012

des[ construção ] - (des )conexa

 
 
 
 
des[ construção ] ( des )conexa

escarcéunario

*
ave
voraz
avestruz etrusco
albatroz atroz
se vê ao vê-la
alva na árvore de avelã
ao avesso na vala
se evola algo dão fio de lã
vela verme ver-me verte
ver-te verde
o vurmo vêde
(s)em rumo vórtice
vólucre álacre
desafio a meada
a moeda o ocre
o creme doce acre
o podre o bruto
a pedra brota
como
amar remar somar
hagar horrível amou helga
ivan terrível
amou sete mulheres
matou aos milhares
rompeu as muralhas
e na melhor das hipóteses
as teses são hipotecas
ou pipocas
como
o hangar de avião
explodiu
um navio fantasma
que ninguém viu
o pavoroso pavio
de pólvora
polvo rosa
o povo em polvorosa
os ramos amarelos
avermelhados elos
olé diário lhe dá de relho
melhor seria a rolha
do que o ralo
- ralho e ralo -
a rola no lero-lero
nem vem querer
que também quero
quero-quero
recruta zero
mel de abelha
estrela estrila
a trilha do horror
o rol da pomba-gira rola
além do olho o arrulho
rolo olor loro marulho
barulho no bar
oooo rrrr llll oooo
bêbados andarilhos
trilhos trilha tralhas
mil ilhas milhas
melão mamão melaço
entre as pernas o aço
faço um laço de fita
dé ri mé fi sá ló
sim o sol
se põe hipoglós
essa glosa é ótima
hipopótamos aí
pó um átimo
último em meu íntimo
há em ti amor ?
roma romã
luar raul
aroma amora
morango moranga
rango danço um tango
um ranger de estrelas
lê em mim sky
poesia pois é poesia
estais no céu
da boca azia sais
má digestão
desconstrução desconexa
anexa a palavra anoréxica
lavra vara a terra
varre a lava
a larva escorre
de ré e revolve
a terra a poesia
se resolve um tiro de revólver
vou ver a poesia
em minhas entranhas
mas que coisa estranha
essa aranha numa teia
sou ateu sou teu sou meu
ao léu à-toa na boa em lisboa
flor-de-liz
sou feliz
sou céu sou cio sou sul
um til na palavra mais vã
a poesia no divã
pois a poesia
está na palavra
e não fora dela
cadê-la ?
minha cadela
a ferro e fogo
forja ela foge
fogaréu névoa
londrina voa
pela américa latrina
uma ave nu condor
vem e leva adão e eva
a morderem a maçã
serpente em teus cabelos
belos é uma medusa
me usa me abusa
tira a blusa nessa tarde
meuteu corpo arde
em vaga-lumes
eleva-me
elevador ao salvador
ao sal da dor
ao soldador
ao sol a dor
leva-me lava
à luz do sol
no azul do céu
a cicatriz
em mim tua unha
um escarcéu
um escarro no cenário
um rio diário
um dia
eu ia
ai de mim
sem a poesia